A marca da dor e da maldade

Em junho de 1978, eu colhi o depoimento de um jovem seringueiro de Tarauacá cuja família havia sido expulsa do seringal Araripe pelo grupo Cinco Estrelas, que adquiriu as terras em 1976.

“Antes dessa desgraça da Cinco Estrelas chegar a Tarauacá nós vivia muito bem, graças a Deus”, dizia o rapaz. O depoimento dele era chocante e na redação do jornal Varadouro todo mundo ficou de olho vermelho quando rodei a fita para ouvir.

No seringal havia mais de cem famílias que tiveram de sair sob ameaça do gerente da Cinco Estrelas, Gil Meireles. O único que resistiu tentando permanecer na terra foi o pai do jovem seringueiro, que era surdo. Meireles era esperto, explicava o entrevistado, usava de influência junto ao delegado e outras autoridades da cidade para expulsar os seringueiros.

O jovem procurou o delegado Moacir Prado para pedir que protegesse seu velho pai, que ficara ilhado com os caminhos de saída da colocação entupidos.

Mas quando falou quem era o agressor, o delegado estrilou: “Quem é você, rapaz, pra vir dar parte do Gil? O Gil é homem muito rico e você é um seringueiro analfabeto”. Ato contínuo, o delegado teria se dirigido a dois parentes que estavam por perto aos quais determinou: “Vão buscar a PM pra levar esses dois [o jovem seringueiro estava acompanhado de um irmão] pro xadrez e chegar lá meter a peia!”.

O jovem se desencantou com tudo, não conseguiu fazer mais nada e teve medo de o Gil matá-lo ou ele matar o Gil. Por isso, deixou o pai e o irmão no seringal e veio para Rio Branco. “Só trouxe mesmo minha rede, outra da esposa e a nossa roupa; e o dinheiro que tinha apurado nos últimos anos”, declarou.

No começo ele gostou da cidade, enquanto gastava o dinheirinho que trouxe, tudo parecia fácil. Mas o dinheirinho acabou no exato momento em que a esposa ganhou nenê:

“Aí eu vi minha esposa com fome pedindo ajuda a um político para interná-la na maternidade. Depois, sair de resguardo da maternidade com a criancinha nos braços e caminhar a pé numa lonjura doida, até o bairro das Placas. Todo mundo com dinheiro e eu sem.”

Esforçado e trabalhador, até que conseguiu emprego numa firma, passando a ganhar somente 700 cruzeiros. “Não tinha saber para mais”, disse.

Nessa hora sentou na calçada, desolado, e lembrou a vidinha pobre, mas segura, que levava no seringal: “Minha casinha ficava encostadinha da do meu pai. Não tinha separação de nada...”.

Passado algum tempo, o rapaz conseguiu situação melhor, na Funai, para trabalhar na estrada de Boca do Acre junto aos índios Apurinãs. Só que a tragédia o acompanhou. Durante um temporal com raios que chegou a queimar os transmissores da TV Acre na capital, ele correu para casa. A mulher tinha sido atingida por um raio, estava estendida no meio da casa, morta, com a criança chorando sobre suas pernas.

Passaram-se 25 anos desde o dia em que fiz a entrevista, e sempre a lembrei nas minhas conversas porque o olhar triste daquele jovem me marcou. E eis que, nesta sexta-feira, 16 de maio, a manchete da página policial do Página 20 - “Servidor da Funai é acusado de amarrar e espancar diarista” - despertou-me atenção.

Meu Deus! Era ele, o jovem seringueiro Francisco Lopes dos Santos, servidor da Funai, 25 anos mais velho, que agora em vez de vítima era acusado de agressor. Um jovem chamado José João Amorim de Azevedo teria passado momentos de pavor em suas mãos:

“Quando chegamos na chácara, ele colocou o revólver na minha boca, mandou o caseiro trazer as cordas, me amarrou e começou a me agredir. Depois de uma hora de tortura, ele e o caseiro se ausentaram e eu consegui me soltar da árvore e fugir com as mãos amarradas.”

Na foto que o jornal publicou, Francisco Lopes de Souza aparece com um semblante arrogante, duro, parecido com o do Gil Meirelles que ele descrevera no passado.