Notícias da “Folha”
Elson Martins

 

O jornalista Corrêa Neto anunciou através do seu “site”, muito bem informado, que o jornal Folha do Amapá está retornando com a versão on-line no prazo de alguns dias, e que a versão impressa também voltará às bancas. O anúncio me leva, como último diretor-geral do projeto, a explicações sobre a paralisação (a quarta de sua história) após as eleições de 2002. Espero que os assinantes e os milhares de leitores que compravam seu exemplar nas bancas acreditem que o jornal parou, como das vezes anteriores, devido a dificuldades financeiras. O golpe mortal foi decidido pela ex-governadora Dalva Figueiredo (PT), sucessora do ex-governador Capiberibe, que reteve pagamentos legais devidos ao jornal. E pelo atual governador, Waldez Góes (PDT), que manteve o calote.

Infelizmente, a notícia espalhada por adversários e concorrentes segundo a qual a Folha nadava em dinheiro público liberado pelo ex-governador e atual senador João Alberto Capiberibe (PSB) nunca teve fundamento. A verdade é que o jornal amarga uma baita dívida referente a tributos, serviços e fornecedores acumulada nos 12 anos de existência e ainda não conseguiu pagar as indenizações da excepcional equipe de jornalistas que teve de dispensar.

Por ter sido desde o começo (maio de 1991) um jornal com linha editorial fortemente comprometida com a democracia, com a cidadania e com as questões legais e éticas da sociedade, a Folha nunca conseguiu consolidar-se financeiramente. Parece contraditório afirmar isso, mas é compreensível, considerando o atraso político que estamos vivendo: um jornal bem feito, atraente e corajoso incomoda aos que têm interesses suspeitos em risco. Tenho receio de que o Estado do Amapá ainda viverá largo período com uma enorme pobreza jornalística.

A Folha surgiu no apogeu da era Barcellos -comandante Anibal Barcellos, da Marinha, último militar nomeado governador do ex-Território pela ditadura de 64 e primeiro governador eleito, em 1990, do recém criado Estado do Amapá, - em clima de muito arbítrio e pouca responsabilidade na condução da vida pública. A imprensa tinha uma única versão, sempre monitorada pelo governo, o que afastava qualquer hipótese de denúncia de irregularidades ou de insatisfação popular. A Folha, de certa forma, quebrou a rotina perigosa para a democracia se colocando como projeto editorial de apoio às novas forças políticas de vanguarda, entre as quais se encontrava o governador Waldez Góes, eleito deputado estadual na época. Uma leitura na coleção do jornal vai mostrar o respeito dispensado ao seu nome e à sua trajetória política.

Muitas pessoas, entre adversários e simpatizantes, criticam o jornal por sua ligação com João Alberto Capiberibe. A relação nunca foi negada, pois Capiberibe, como prefeito da capital (1988/1992), ajudou a criar e manter a Folha. Depois, em dois mandatos de governador continuou ajudando, mais e melhor. O jornal não teria existido durante 12 anos sem essa ajuda, pois os recursos obtidos com alguns clientes e um número razoável de assinantes e leitores que compram exemplares nas bancas não são suficientes para cobrir as despesas. Poucos jornais, na verdade, aqui e em qualquer lugar do país conseguem manter-se sem verbas do governo, que são legais enquanto pagam editais, avisos e notícias do interesse público sem cercear a liberdade da publicação.

A Folha tem cometido erros, temos que admitir, mas acerta muito mais em favor da sociedade contribuindo para o debate político democrático. Seria bom, portanto, que fosse melhor entendida pelo compromisso que mantém com as boas idéias e com as propostas políticas, sociais e econômicas que levam ao bem estar das pessoas porque, é esse seu engajamento principal. Um compromisso que pode explicar a ligação com Capiberibe e com o desenvolvimento sustentável no Amapá que o ex-governador trabalhou de 1995 a 2002.

Por conta das dificuldades que se agravaram desde que Dalva Figueiredo (PT), ex-vice de Capiberibe, e Waldez Góes (PDT) se sucederam no governo, ambos agindo como inimigos do jornal, a situação ficou insustentável. Eu mesmo tive que retornar ao Acre, minha terra, para sobreviver com o ofício de escrever e pensar com relativa liberdade, e nestas circunstâncias transferi minhas cotas do jornal para outra pessoa que vai continuar com o compromisso de faze-lo voltar às bancas. A alguns amigos, posso garantir que voltei ao Acre mais pobre do que quando fui para o Amapá em 1991 para montar a Folha e ajudar o projeto do desenvolvimento sustentável da região. Mas estou bem com a minha consciência, e com meu novo trabalho junto ao Governo da Floresta que também é sustentável.

Alguns poucos nomes da equipe da última fase do Folha estão encarregados de promover o seu renascimento com a mesma qualidade e com o mesmo compromisso social. E eu, embora no Acre, estarei junto como colaborador. Ao mesmo tempo, advogados e pessoas ligadas ao projeto estão planejando uma estratégia de salvar o jornal negociando os tributos e quitando as dívidas com fornecedores, funcionários e assinantes. O jornal tem patrimônio que vai entrar nessa negociação; e tem, sobretudo, moral e credibilidade para continuar dando sua contribuição para a sociedade sustentável que a população começou a construir no Amapá. Espero que a história comprove isso.