Presidentes: um “de costas”,
outro “de frente” para o Acre

Há exatamente 21 anos, em maio de 1978, a antropóloga e atual secretária especial da Amazônia Mary Allegretti entrevistou o seringueiro Rubem Rebouça de Oliveira para sua tese de mestrado no curso de Antropologia Social da UNB. Rubem, que se definiu como “homi inguinorante mas de pensá, que presta tenção quando vê os homi de posição conversá” vivia na colocação Canta Galo do Seringal Alagoas, no alto rio Tarauacá, distante 3 a 4 dias de batelão da cidade. O seringal que pertencia ao seringalista e então senador Altevir Leal estava arrendado para a empresa Tarauacá Agropecuária S.A.- um grupo de empresários do sul que, em 1974, adquiriu mais de um milhão de hectares de terras do próprio Altevir.

Mary entregou a fita que gravou com o seringueiro para que fosse publicado no jornal “Varadouro”, um recado que Rubem mandou ao Presidente Ernesto Geisel. Ele começava assim:

“Boa noite , Presidente da Nação, general Ernesto Geise...Eu venho por meio desta cumprimentação de um caboclo brasileiro nascido no Estado do Acre, venho lhe cumprimenta. Eu digo nesta fita que o sinhô está sentado de costa para o Estado do Acre...Eu pedi que o sinhô virasse, sentasse de frente e olhasse as nossas condições de triste selvage seringueiro...”

Depois de fazer um minucioso relato da situação nos seringais, em que os patrões exorbitavam no preço de produtos de primeira necessidade para os seringueiros e só pagavam o que queriam pela borracha que aqueles produziam, Rubem expressou para o poderoso General Ernesto Geisel, um dos mais duros de regime militar de 64 a sua revolta:

“Acho mesmo que o sinhô, também é muito culpado disso...Vai, pergunta o preço, uma capa de cartucho custa 25 cruzeiro. Se o sinhô escolhesse homi de critéro para fiscaliza a nossa situação...

“Uma veiz tentei pega um documento meu lá em Rio Branco, na capitá, minha carteira de reservista treis. Mas o Altevir Leal cancelou minha passage, ele sonegou até a passage nas embarcação dele. Era pra eu vortá para o seringal, pra trabaiá em veiz de ir atrás do documento”...

“Olha aí, Presidente da Nação, que o sinhô ta aí no seu Catete (antiga sede do governo federal no Rio de Janeiro. Rubem parecia desconhecer a existência de Brasília fundada em 1962)...o sinhô no nosso Catete num ta sabendo e ninguém lhe avisa pruquê num tem língua. Um senador corre com o triste seringuero da propriedade dele. O senhor avalie uma cousa dessa, presidente”...

E ao encerrar:

...”Bem, presidente, agora vou terminar com essa fita. Vá descurpando nossa fraca voz pois já to um homi idoso e os pulmão ta meio fraco. Vou termina mas quero que todos vocês e a dona Maria (Mary, a antropóloga) me ouça: nós somo brasileiro e vamo se levanta e vamo dá viva ao Brasil. Viva o Brasil!..

Nessa hora fez-se uma pausa, silêncio, e em seguida ele retomou falando para os que estavam em volta, ouvindo a gravação: “Ô menino, oceis num tem boca não?! Viva o Brasil”!

A mensagem do seringueiro Rubem Rebouça de Oliveira ao Presidente Ernesto Geisel foi publicada na edição número 14 do jornal “Varadouro”, em março de 1979, com o título “Presidente da Nação, o sr. está de costas para o Acre”. Achei interessante lembra-la a poucos dias da visita do Presidente Lula ao Estado porque, verdade se diga, este sempre esteve de frente para nós, antes e depois de tornar-se Presidente.

A primeira vez que Lula vaio ao Acre foi em 27 de julho de 1980, quando se realizou em Brasiléia uma grande concentração de seringueiros, ambientalistas, estudantes e lideranças políticas de esquerda para protestar contra o assassinato de Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, ocorrido dia 21 daquele mês e ano. Por conta da visita e da forma como encampou a luta dos acreanos, Lula foi processado junto com outros companheiros na Lei de Segurança Nacional. Ele voltou ao Acre outras vezes, em novos momentos em defesa da Amazônia e em campanha eleitoral.

Agora, dias 9 e 10, vem acompanhado de dez ministros, de cinco governadores da Amazônia e das bancadas estaduais e federais da região, começando pelo Acre a construção de uma nova e justa Nação brasileira.

O seringueiro Rebouça, onde quer que esteja (até no céu), certamente vai ficar muito contente.