Quem duvida perde a vida
Elson Martins

Durante a Expedição à Foz do Breu que promovemos na segunda quinzena de fevereiro, navegando pelo rio Juruá numa baleeira confortável, eu e outros sete companheiros visitamos comunidades ribeirinhas e arriscamos algumas penetrações na floresta, como na Boca do Grajaú, para ver o belo lago de São Salvador. No rio Tejo, conhecemos uma família de seringueiros que produz o couro vegetal e nos acolheu com a habitual gentileza dos povos da floresta. Ali, na beira do barranco, rolou conversa sobre a existência ou não da Cobra Grande.

Integrava o grupo o doutor em Engenharia Florestal, Guilherme Andrade, amigo do desembargador Arquilau que coordenou a viagem. O engenheiro que trabalha na Embrapa de Curitiba atravessou o país para integrar-se à equipe, assim como a jornalista, escritora, socióloga e antropóloga Maria Maia que veio de Brasília. Muito expansivo, solidário e simples, Guilherme é também um desportista e, sobretudo, maluco por informática. Se não tivesse embarcado conosco, não teríamos conseguido operar a parafernália eletrônica que a Global Star do Brasil nos ofereceu para que mantivéssemos contato com a mídia regional e nacional mandando inclusive textos e fotos via Internet.

Viajando sob intenso e constante aguaceiro e com o tempo prometendo a toda hora mais dilúvio, as conexões que já exigiam boa iniciação na informática de ponta pareciam impossíveis. Na foz do Breu, na fronteira com o Peru, às tentativas de resolver o problema com a Global Star ou diretamente com a Embratel, quem respondia era uma telefonista do Peru sugerindo, em espanhol, caminhos mais complicados. A vontade que dava era esquecer o camarote onde foi instalado o kit da Global Star e ficar apreciando a paisagem que descortinava nas curvas e estirões do rio.

Mas para o “Perigosão”, como o dono do barco Lua Cheia, Elival Monteiro, outra pessoa de extraordinário bom humor passou a chamar o engenheiro florestal, por causa de sua altura (quase dois metros) e sua simpatia, ali não cabia o verbo desistir. Até porque ele queria comunicar-se com a jovem esposa em Curitiba. Por isso, todo mundo entrou no clima e, claro, encarou o verbo “conectar” como solução e determinação. Para fazer rir, o comandante Elival dava ordens para o seu maquinista: “Conectica o motor aí que já vamos partir”.

Mas, queria ver o Guilherme ficar sério e assumir a formação científica na graduação de doutor, era dizer que junto àquelas beiras de rios onde se observava um remanso podia residir uma cobra grande, das tais que engole uma pessoa brincando, e até um boi inteirinho. “Alguém já viu isso? Estou careca de ouvir essa história de cobra grande que engole gente, mas não conheço alguém que estava lá para ver”, desafiava.

A descrença do homem era tanta, que ele ignorou solenemente a advertência de uma família do rio Tejo que entrevistamos sobre o couro vegetal. A visita acontecia num breve intervalo do aguaceiro, num começo de tarde muito quente que Guilherme aproveitou para dar umas braçadas no rio, aplicando variadas e perfeitas manobras sobre o remanso junto ao barranco. Até que o chefe ribeirinho advertiu : “É melhor ele parar. Aqui nesse poço mora uma cobra grande, a bicha esturra de noite e já quase pegou um dos nossos cachorros. Nós paramos de tomar banho no rio por causa dela”.

Qual nada! Ao ser advertido, nosso herói reagiu exibndo novas variações de nado: fez de costas, cachorrinho, borboleta, um show completo parecendo até uma Esther Williams dos anos cinquenta. Sua imprudência inquietou os companheiros de viagem nascidos na Amazônia, ao ponto de trocarem a apreensão por uma quase ofensa: “Vai ver que a cobra está avaliando se vale a pena engolir esse magrelo que só tem pele e osso!” Mas, graças a Deus, a coisa ficou nessa provocação e finalizamos a expedição sem incidentes.

Esta semana, porém, folheei a Seleções Readers Digest de março e me deparei com uma reportagem assinada por Paul Rafaelle sobre “os segredos mortais desse predador misterioso e esquivo” que, segundo ele, começam a ser desvendados. A matéria tem como título “Nos domínios da Sucuri” e mostra em várias fotos coloridas o biólogo colombiano Jesús Riva e sua asssistente, Jennifer Moore engalfinhados com uma delas num pântano venezuelano.Os dois estudam o tema desde 1992, financiados por organismos internacionais. Rivas é professor assistente da Universidade do Tennessee, Estados Unidos.

Em 1948, segundo o texto de Paul Rafaelle, a imprensa brasileira divulgou que uma sucuri de 47 metros matou soldados e destruiu construções na Amazônia. Em seguida ele faz a ressalva: “Os rumores crescem porque a sucuri raramente é vista. Caçadora de emboscada, a maior cobra do mundo vive submersa nas bacias dos rios amazonas e Orinoco". Já o especialista Jesús Riva a descreve com segurança e precisão: “Normalmente, a cobra emerge da água e ataca com velocidade espantosa. Agarrando a presa com os dentes afiados como agulhas, a sucuri se enrosca em torno dela, provocando uma parada circulatória imediata. O fim é rápido, explica Rivas: “Ela cinge a presa com tamanha força que quebra sua espinha”.

Decidi guardar a reportagem de Paul Rafaelle para mostrar ao “Perigosão”. Espero que ele se convença do risco que é descrer das histórias amazônicas, por mais fantasiosas que pareçam, até porque está prevista uma segunda Expedição no rio Chandless ano que vem.