Economia com “tripa de galinha”
por Elson Martins
A compensação para o cidadão comum, que pouco entende de economia de mercado e globalização, ou de queda da bolsa e índices tais, temas recorrentes na televisão, é que ele pode apertar o controle remoto e cuidar da sobrevivência de forma menos complicada. Até porque o que estão falando, instruindo e advertindo, é para quem tem dinheiro acumulado e quer acumular mais, não para quem vive de salário defasado na administração pública ou de alguma outra atividade cujo rendimento, de tão curto, se acaba antes de qualquer projeção feita em economês.

Nesta situação se enquadram os povos da floresta que, aliás, estão acostumados a viver sem os padrões sugeridos de fora. O que os mantém é uma economia alternativa praticada secularmente, embora nunca os governos tenham planejado uma melhoria de vida em função de seus resultados. Na verdade, nunca a valorizaram, nem mesmo a consideraram uma economia, o que, entretanto, se impõe nestes tempos confusos e globalizados comandados por um indigesto caubói americano.

Mas a economia da qual estou falando esfrega as ventas de todo mundo, até as dos planejadores alhures, a quem incomoda como mutucas forçando o uso de repelentes. Não é o caso do Governo da Floresta que, entretanto, precisa abrir os olhos para pautar melhor o desenvolvimento sustentável. Exemplos não faltam, e é aqui que entra minha modesta contribuição.

A economia da floresta que imagino deve passar pelo planejamento do Gilberto Siqueira com sua equipe técnica, mas, fundamentalmente precisa ser implementada por ações compartilhadas entre diversos órgãos governamentais, destacando-se a Secretaria de Educação e a Fundação Cultural. O orçamento da Cultura teria que ser reforçado para ajudar na criação de uma mentalidade nova de produção e consumo movida a sentimento, estética, auto-estima, enfim: movida a uma cultura acreana por excelência, explorada em sua potencialidade criativa.

O governador Jorge Viana está resgatando o segundo distrito com uma idéia que pode servir a esse propósito. Como tudo ali, presume-se, vai girar em termos da atração turística com ambientação histórica e cultural,não será difícil envolver muita arte nisso: a arte das costureiras, a arte das douceiras e a arte dos escultores; a arte dos que trabalham em artefatos de borracha,couro vegetal e madeira; a arte dos quitutes, dos arranjos florais, das essências perfumadas...Querendo, dá para redescobrir e utilizar um mundo de coisas maravilhosas que os acreanos sabem fazer.

A partir do núcleo no segundo distrito a idéia pode se espalhar. E o Canal da Maternidade seria um outro espaço-laboratório: ali vão funcionar bares, lanchonetes, restaurantes, teatro, pracinhas com vendedores ambulantes, todo um conjunto de atividades para experimentar uma estética nova (antiga). As mesas, os aventais, os guardanapos, os cardápios, teriam que passar pela avaliação de uma comissão que julgasse a qualidade destacando a singeleza e originalidade das peças. As comidas, os ponches e as broas,por exemplo, também seriam avaliados.

Sugiro que as toalhas e os cardápios dos restaurante sejam confeccionadas em couro vegetal. E que a cajuína daquela senhora de Xapuri seja servido nos restaurantes como um sofisticado drinque.

O que estou propondo, com o alcance de um cronista dominical, é que se resgatem as coisas boas que o Acre teve no passado e que agora pode agradar mais ainda gerando renda para quem as produz. Ou seja, estou pensando numa forma de gerar riqueza com identidade cultural.

Espero que no resgate reapareça uma especialidade que eu consumia nos anos cinqüenta, quando atravessava o rio, de catraia, para aprender no segundo distrito a arte de relojoeiro com meu irmão Normando e o seu Patrão, o mestre Pedro Silva. A relojoaria ficava ao pé da escadaria, com visão ampla para o largo onde as ruas bifurcam. Ali, por volta das 10 horas, eu mantinha um olho nas microscópicas engrenagens dos relógios e o outro num moleque que aparecia com uma bacia de alumínio na cabeça vendendo “tripa de galinha”. Era assim que se chamava a guloseima, que se assemelhava às tripas guisadas das penosas,- outra coisa a se resgatar,- só que era feita de uma massa crocante com recheio de mel de abelha da floresta.

Meu Deus! O sabor daquelas tripas de mel só pode ser comparado, na minha memória, ao sorvete dos ambulantes que percorriam as casas com uma espécie de barrica, de onde retiravam a massa servida num cascalho com gosto de hóstia.