Universidades em Rede

Um sopro de vida animou na semana passada as universidades federais do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima, consideradas periféricas na Amazônia. As quatro instituições estiveram juntas em Rio Branco discutindo a possibilidade de atuar em rede para sair do isolamento e da desvantagem em relação às demais universidades públicas do país. A situação do grupo é tão crítica que os próprios reitores e alunos, em tom de humor, o apelidaram de “eixo do mal”.

A idéia de atuação em rede partiu do senador João Alberto Capiberibe (PSB-AP), autor do projeto no Congresso e que arrastou o ministro de Ciências e Tecnologia Roberto Amaral até a capital acreana. O ministro impressionou pela simplicidade e disposição de ajudar, e até anunciou uma verba liberada de R$ 30 milhões para pesquisas e formação na Amazônia, mas acabou dando um puxão de orelha em quem vive pensando em mestrado e doutorado desligando-se da realidade regional:

-Eu sou eminentemente político e fundamentalmente militante -explicou, após confessar que tem muito medo do sentimento científico que trabalha com prazos longos demais em situações de emergência. Ele arrematou que na política e no planejamento se tem pressa, a Amazônia tem pressa e se o quadro de hoje é favorável a determinadas ações, pode ser que o de amanhã não seja.

Na opinião do ministro, os professores que passam de 6 a 7 anos fazendo mestrado e doutorado em centros distantes da Amazônia pouco ajudam a região. A Universidade do Acre pode ser um exemplo: possui mais de 80 doutores formados em centros de pós-graduação em universidades do sul do país ou no exterior, entretanto, esse conhecimento não tem sido aplicado na rica biodiversidade da região de forma a gerar emprego e renda. Roberto Amaral prefere, então, investir em pesquisas diferenciadas, tendo anunciado que vai reaparelhar o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), com sede em Manaus, e o Museu Emilio Goeldi, de Belém, onde deverão ser treinados os mestres e doutores amazônicos.

O senador Capiberibe recomendou a articulação do mundo da ciência com o mundo da política para formar “cientistas militantes” identificados com a realidade amazônica. Referindo-se aos R$ 30 milhões anunciados pelo ministro, o senador alertou para que esse dinheiro não vá todo para o Maranhão (de seu desafeto José Sarney, também senador pelo Amapá), ou para os estados “gulosos” do Amazonas e Pará. Capiberibe sugeriu aos reitores “periféricos” duas coisas importantes: correr com a proposta das quatro universidades; e procurar trabalhar mais com personalidades, menos com instituições. Ou seja, é preciso procurar políticos e cientistas que se empenhem em favor do desenvolvimento sustentável da Amazônia, de verdade.

O projeto Universidades em Rede -Ciência e Tecnologia para um Desenvolvimento Regional Sustentável, como foi denominado o encontro de Rio Branco, distribuiu tarefas para as universidades periféricas: a UFAC, do Acre, vai priorizar as pesquisas para exploração de produtos florestais madeireiros; a UNIR, de Rondônia, cuidará de monitoramento ambiental e controle de enemias; a UFRR, de Roraima estudará as savanas; e a UNIFAP, do Amapá ficará com a organização socio-ambiental e gestão territorial. Foi assinado um protocolo de intenções e programado um encontro em Brasília no mês de setembro.

Além do ministro Roberto Amaral e do senador Capiberibe outros politicos e autoridadse prestigiaram o encontro dos reitores. O senador Geraldo Mesquita Júnior (PSB-AC) também assinou o documento das universidades periféricas. E na comitiva do ministro estavam Isaac Roitman representando o Ministério da Educação, Gilberto Sá (do CNPQ) e Sueli Vilela, pro-reitora de pos-graduação da USP. Esta não deve ter gostado das falas do ministro, de Capiberibe e de outros participantes que se manifestaram contrários aos pacotes de pesquisas impostos na Amazônia pelos bwanas nacionais e estrangeiros