Ainda sobre a ciência e a verdade

Meu último artigo, “Diálogo sobre a ciência e a verdade”, em que expunha um debate com uma aluna (Ronelli Aragão) sobre a possibilidade da ciência ter conhecimento total da realidade, provocou algumas reações interessantes. Entre elas, a de Carol Assis.

Aluna de terceiro ano de jornalismo, Carol sempre se mostrou interessada nos assuntos discutidos no artigo e resolveu dar sua opinião sobre eles. A seguir apresento a íntegra de seu e-mail:

A palavra “pretensão” não sai da minha cabeça quando ouço falar sobre a verdade. Isso por que é simples notar que grande parte dos filósofos e cientistas tem a pretensão de alcançá-la. Digo pretensão por que não há consenso sobre ela.

A questão de termos ou não acesso perceptivo direto sobre o mundo me fez lembrar de uma frase do Tom Yorke: “Só por que você sente, não quer dizer que está lá” (just cause you feel, doesn’t mean it’s there). E mais ainda me lembra do filme Matrix, que você inclusive citou. O mundo em Matrix, na percepção dos humanos, era uma realidade apenas virtual (ilusória) na qual varias mentes eram levadas a acreditar que viviam em uma realidade como a que nós vivemos, mas na verdade essas mentes estavam presas a cabos e seus corpos serviam de bateria para sobrevivência das inteligências artificiais, máquinas, que dominavam o mundo. A Matrix seria um excelente retrato do tema explorado por vocês. Lá as pessoas sentem, ouvem, vêem um mundo que eles têem como real, mas nada, além de cabos e bytes, existe.

Enquanto isso Morpheus, uma mente livre dessa ilusão, procura alguém capaz de “decodificar” os códigos da Matrix, este alguém é Neo, “O Escolhido”. Morpheus faria o papel do bom filósofo, já que ele apenas indica o caminho para Neo, e espera que ele consiga enxergar a realidade por de trás da Matrix sozinho. Assim também nós procuramos entender o que é a “verdade”.

Não estou dizendo que vivemos num mundo virtual e que nossos corpos servem de bateria para máquinas inteligentes. Mas estou concordando com a idéia de que nem sempre nossos sentidos colaboram para a percepção do que chamamos de realidade. Um exemplo ainda mais simples, e não ficcional, é que hoje é comum acusarem as imagens do homem na lua de falsas e até algum tempo atrás todos acreditavam na imagem do astronauta fincando a bandeira americana na lua.

Uma das poucas coisas, com algum sentido, que li de Pierre Levy foi que “O possível é exatamente como o real, só lhe falta a existência”. Existem varias possibilidades sobre a verdade. É o que o relativismo defende, mas é preciso ter bom senso em qualquer ramo científico, natural ou humano. Não se trata de sermos céticos, mas sim de sermos prudentes. Aqui também se inclui a importância do discurso da verdade em jornalismo, Bom senso e responsabilidade na hora de apresentar como verdade certa versão dos fatos, mas não se iludir e nem iludir a sociedade usando a teoria do espelho como escudo. Não, o jornalismo não é o retrato fiel dos fatos, existe de fato esta pretensão, mas assim como os filósofos e cientistas buscam a verdade, nós jornalistas buscamos (ou deveríamos buscar) a objetividade e honestidade.

“A melhor maneira de explicar a coerência de nossas experiências é supor que o mundo exterior corresponde, ao menos aproximadamente, a imagem dele fornecida pelos nossos sentidos”(Alan Sokal)