Diálogo sobre a ciência e a verdade

“Não quero ser o dono da verdade
pois a verdade não tem dono não“

Raul Seixas

Ronelli Aragão foi uma das minhas melhores alunas. Uma de suas características era justamente aceitar como verdade algo antes de pensar a raciocionar muito sobre o assunto. Uma aula com ela era certeza de que os conteúdos seriam questionados, o que considero ótimo. Recentemente recebi dela um e-mail com alguns questionamentos sobre minha visão do jornalismo e da ciência, em especial sobre a idéia de que o jornalismo jamais apresenta uma verdade absoluta, mas uma versão dos fatos. A essa versão, somam-se outras versões de outros meios de comunicação. O mesmo ocorre com a ciência. Achei suas perguntas tão interessantes que resolvi dividi-las com meus leitores, juntamente com as respostas.

Ronelli: “SE NÃO EXISTE VERDADE, TAMBÉM NÃO EXISTE ERRO, E SE NÃO
EXISTE ERRO, É IMPOSSÍVEL HAVER CIÊNCIA”.Olá Ivan, O que acha da afirmação acima?Concorda ou discorda? Porque? Já leu o livro: Mente, Linguagem e Sociedade, de John R.Searle? É um livro bastante interessante. Entre outras questões, o autor condena a crença de que nosso mundo dependeria da percepção que temos dele. Insiste que há um mundo real, e apresenta argumentos bem convincentes.

Na verdade Searle é defensor da idéia iluminista, que crê em um universo inteligível por completo, sendo que, este universo poderia ser decifrado através de um entendimento sistemático de sua natureza. Para ele, o mundo real existiria de forma bastante independente de nossas mentes (realismo externo) e, dentro dos limites estabelecidos por nossas capacidades evolutivas seriamos capazes de compreende-lo. Afirma ainda que o realismo externo não é uma opinião ou teoria, é fato.Trata-se da estrutura necessária para tornar possível a existência de qualquer teoria.

 

Ivan Carlo: Essa idéia iluminista tem nome: demônio de Laplace. Laplace acreditava que o universo era determinado. Assim, se fosse possível a uma inteligência saber a posição de todas as partículas do universo e, se essa inteligência fosse capaz de fazer todos os cálculos necessários, todo o universo e o tempo, presente, passado e futuro, se revelariam diante de seus olhos.

Hoje sabe-se que o demônio laplaciano é uma falácia, pois a realidade é dinâmica. Fenômenos que apresentam um comportamento hoje podem mudar completamente de comportamento amanhã. É, portanto, impossível ao homem conhecer toda a verdade, embora isso não nos impeça de tentar.

A crítica da teoria do caos a essa visão clássica do conhecimento não é uma negação da realidade externa, mas a percepção de que essa realidade se altera de maneira caótica, tendo uma estrutura fractal. Vale lembrar que o iluminismo científico pretendia reduzir o universo a modelos simplificados e, portanto, redundantes. Como exemplo, uma montanha era vista como um cone, um raio virava uma reta, etc... A realidade é muito mais complexa que isso e se assemelha mais a uma figura tridimensional, com várias facetas, que não podem ser vistas todas ao mesmo tempo.

Ronelli: Segundo o autor, nós teríamos acesso perceptivo direto a este mundo por meio de nossos sentidos, especialmente tato e visão. E entre os fenômenos do mundo independentes da mente, estariam coisas como os átomos, as placas tectônicas, os vírus, as árvores e as galáxias.

Ivan Carlo: O acesso perceptivo do mundo é muito falho. Por séculos o homem pensou que o Sol girava ao redor da Terra. Os sentidos demonstravam isso. Quando era criança, certa vez viajei de trem e, enquanto esse se movimentava, eu tinha a impressão de que estava parado e que era o mundo que estava em movimento. Meus sentidos me enganaram (embora não totalmente, já que o mundo de fato se move, mas não daquela maneira). Muitas pessoas têm alucinações que parecem totalmente reais. E quantas vezes não acordamos de nossos sonhos acreditando que o que sonhamos era verdade? Os sentidos não são confiáveis e isso tem sido demonstrado em várias situações, inclusive na ficção, com filmes como Matrix e Vanila Sky. O filósofo René Descartes havia percebido isso e propôs como única maneira de conhecermos o mundo a razão. Se eu duvido do que vejo, significa que eu estou pensando, se eu estou pensando, significa que existo. Penso, logo existo. Como uma forma de se adaptar à crítica de Descartes, a ciência aperfeiçoou instrumentos de pesquisa. Uma balança é mais confiável para descobrir o peso de algo do que a percepção subjetiva que temos segurando-a nas mãos. Para os cientistas positivistas, uma verdade só é real se puder ser transformada em números, em algo quantificável. O funcionalismo, com suas pesquisas de opinião, é herança direta desse pensamento. Hoje as críticas à técnica funcionalista pipocam. A teoria dos sistemas demonstrou que a sociedade não é uma seta de mão única. Ao pesquisar uma realidade social, o cientista acaba interferindo nessa sociedade e alternando-a.

Ronelli: No entanto, muitas correntes filosóficas, com bons argumentos, questionam ou até mesmo negam a existência deste mundo real e da possibilidade da verdade (Parece bem familiar não?). Entre estas correntes estaria a do Perspectivismo, que defende a idéia de que todo conhecimento tem um caráter essencialmente perspectivo, ou seja, “alegações sempre ocorrem dentro de limites que proporcionam os recursos conceituais nos quais, e por meio dos quais o mundo é descrito e explicado. Ninguém nuca vê a realidade diretamente como ela é em si”. Nosso conhecimento nunca é sem mediação (ponto de vista), e já que não podemos ter um conhecimento não mediado do mundo, então talvez ele nem exista. Tudo se resumiria em uma produção interpretativa de nossas mentes. O que você acha disto?

Ivan Carlo: Essa visão tem antencedente bem mais antigo nos sofistas, que afirmavam que “o homem é a medida de todas as coisas”. Assim, tudo é relativo. Não é essa a proposta de novos pensadores da ciência e do jornalismo.

Ronelli: Bem...Searle considera um erro acreditar que para se ter o conhecimento da realidade como ela é, seria preciso conhecê-la de nenhum ponto de vista. E cita o seguinte exemplo: “Vejo diretamente uma cadeira diante de mim, mas é claro que a vejo de um determinado ponto de vista. Na medida em que é inteligível falar sobre conhecer a realidade diretamente como ela é em si, conheço-a quando sei que há uma cadeira ali, porque a estou vendo”. Logo, temos acesso perceptivo direto ao mundo real.

Ivan Carlo: Como já afirmei, os sentidos não são totalmente confiáveis. O que garante que, de fato, a cadeira existe, e não é uma alucinação? Além disso, a percepção é sempre mediada. Toda percepção, segundo a semiótica, é um signo. No caso do jornalismo, a percepção é um signo de outro signo, já que o leitor tem acesso aos conhecimentos através da percepção de um jornalista.

Ronelli: Quanto à idéia de o perspectivismo considerar impossível que tenhamos conhecimento de fatos que existam de forma independente de nossas mentes e significados lingísticos, o autor rebate da seguinte forma: “O fato de haver água salgada no Oceano Atlântico ocorria muito antes de alguém identificar aquela porão de água como Oceano Atlântico, ou para identificar de que era feita esta água”.

Para Searle, fatos existem, são reais, independente da falácia. São condições que tornam afirmações verdadeiras.

Quanto à relatividade conceitual? Bem, “se são feitas duas alegações de pontos de vista divergentes, mas condizentes com a realidade, uma vez que se compreenda a natureza das alegaões, não haverá incoerência alguma em considerar ambas verdadeiras”. O que não significa dizer que a verdade não exista. Ela existe, porque o mundo real existe, e se o mundo real existe, e independe da mente humana, então existe uma forma como as coisas realmente são.

Ivan Carlo: De fato, o mundo real existe, mas é impossível ao homem conhecê-lo em toda a sua essência, sem qualquer tipo de equívoco. No livro Sete saberes necessários à educação do futuro, Edgar Morin diz: “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos”.

Karl Popper, um dos mais importantes filósofos do século passado, dizia que a ciência é um conhecimento provisório. Tanto que, para ele, a possibilidade de falseamento é que demonstrava se uma teoria era ou não científica. Embora Popper fosse positivista, ele demonstrou que o cientista só age como tal quando tenta provar que suas hipótese são falsas. Em ciência não existe confirmação de uma teoria. Não podemos dizer, por exemplo que a lei da gravidade é confirmada, mas sim que ela ainda não foi falseada. Talvez um dia se encontre um local em que ela não funcione, ou funcione de maneira diferente. Voltando à sua primeira citação, o que os novos pensadores da ciência propõe não é a não existência do erro. Pelo contrário, o erro existe e essa é a razão pela qual nunca teremos uma visão completa da realidade. As novas propostas epistemológica acreditam que se deve conviver com a possibilidade de erro. Ignorar que todo conhecimento humano, mesmo aquilo que mais acreditamos como verdade, é passível de erro, é tão grave quanto considerar que não há erro em nenhuma versão dos fatos.

Ronelli: Quer saber o que penso de tudo isso? Vamos lá... O mundo real existe, independente de nossas interpretações pessoais, o que pode ser comprovado através dos argumentos anteriormente citados.

Este mundo poderia ser percebido e apreendido sob vários aspectos ou pontos de vista. Sendo que, nem todos os pontos de vista estariam corretos pelo simples fato de serem pontos de vista. A verdade estaria com aqueles que demonstrassem uma correspondência lógica com este mundo
real.Esta correspondência seria lógica se baseada no fato de que as coisas são como são porque a realidade assim as determina (Ex: O rio Amazonas, independente de qualquer tipo de interpretação, existe, e possui aspectos particulares que podem ser visíveis e tocáveis).

Ivan Carlo: Essa correspondência lógica seria baseada em quê? Os sentidos não são totalmente confiáveis, como já se demonstrou. Talvez seja possível demonstrar que determinados pontos de vista são equivocados, baseando-se na razão e na observação, mas é impossível dizer que determinado ponto de vista é totalmente verdadeiro. Pode-se afirmar, como Popper, que ele é verdadeiro por enquanto. Fatos posteriores podem demonstrar que ele está embutido de erro e ilusão. Pegando o exemplo do rio Amazonas, você cita as particularidades do mesmo. Isso, em teoria do jornalismo, é chamado de singular. O jornalismo trabalha com o singular, a ciência com o universal. Quando você diz que o rio Amazonas tem uma extensão de tantos quilômetros, você está se referindo a uma singularidade dele, mas quando você diz que ele segue um regime de marés, você está se referindo a uma universalidade (campo da ciência). Ou seja, uma característica que é compartilhada com todos os rios do mundo. A compreensão do singular talvez seja mais fácil, mas a compreensão do universal envolve mais riscos de erros, já que esse é conhecimento só é possível pela comparação entre diversos pontos de vista. O jornalismo, quando necessita tratar do singular, recorre a um cientista. Ou seja, quando a informação chega ao leitor, ela já é um amontoado de versões, provavelmente complementares, mas ainda assim, versões. Versões essas que passaram pelo crivo cognitivo do jornalista. Uma matéria jornalística nunca é a pura expressão dos fatos.

Vou dar um exemplo de como isso se dá. Tenho à minha frente o segundo número da Superinteressante. Naquele ano de dezembro de 1987 a revista trazia uma matéria sobre os dinossauros. A matéria falava do mistério do desaparecimento desses animais que dominaram a terra por talvez milhões de anos. Uma das teorias levantadas pela matéria é a do meteoro que teria atingido a terra. A revista explicava que essa teoria era muito criticada pela maioria dos cientistas, pouco dispostos a aceitar essa explicação. Hoje já é praticamente consenso que os meteoros foram responsáveis por um processo que culminou com o fim dos dinos. O impacto provocou uma alteração climática que matou os dinossauros que haviam sobrevivido ao fogo inicial. Só sobreviveram os pequenos dinossauros que se transformaram em aves e animais pequenos, que comiam pouco e tinham mais chance de sobreviver em uma situação de pouca fartura. Esse caso demonstra como todos os cientistas que criticavam a teoria do meteoro tiveram suas hipóteses falseadas. O jornalista, nesse caso, cumpriu sua missão, divulgando todas as versões. Naquele momento todas as hipóteses eram virtualmente verdadeiras.

Ronelli: Com relação à substituição da verdade por versões ou verdades (como queira chamar), chego à conclusão de que, a questão de pessoas perceberem um mesmo fato sob vários ângulos, sendo suas conclusões, todas, condizentes com a realidade, não implica dizer que tais conclusões seriam verdades paralelas, mas sim seria possível entender que, a mente humana é incapaz de analisar e compreender um fato de forma total, sob todos os ângulos. Desta maneira, o que você chama de verdades, eu chamaria de fragmentos de uma verdade absoluta.

Ivan Carlo: Certo. Nesse sentido, pode-se pensar na realidade como uma jóia intricada impossível de ser percebida de um único ponto de vista. Algumas visões podem ser complementares, outras totalmente errôneas. Entretanto, mesmo todos os pontos de vista jamais darão conta da realidade como um todo. Se todas as mentes do mundo se pusessem a analisar um fenômeno, ainda assim esse fenômeno não poderia ser totalmente descrito, já que passa a existir aí mais um elemento no processo (o fato de todas as pessoas o estarem analisando). Por isso digo que tanto o cientista quanto o jornalista poderão apenas expressar seu ponto de vista sobre um assunto (principalmente o jornalista, que conta com poucos instrumentos de pesquisa e é obrigado a confiar em seus sentidos), sem jamais dar a verdade definitiva sobre o mesmo.

Ronelli: Concluo minhas idéias acreditando, portanto, na existência do mundo real, da verdade absoluta e inapreensível em sua totalidade, na existência do erro e no fato de que, conseqüentemente, fazer ciência é
possível. Obs: Até que me provem o contrário.

Ivan Carlo: As dificuldades cognitivas e possibilidades de erro não nos devem desestimular de praticar tanto a ciência quanto o jornalismo. Afinal, como dizia Charles Peirce, o criador da semiótica, o ser humano tente para a busca da verdade, definida por ele como a mudança de um estado de insatisfação para outro de satisfação baseado no conhecimento. O que é perigoso é acreditar que esta ou aquela versão é a verdade absoluta, como crê a teoria do espelho (segundo a qual o jornalismo é um espelho fiel da realidade) ou o positivismo funcionalista (segundo o qual é possível chegar a uma verdade sobre a sociedade e as coisas desde que os dados sejam transformados em números, em algo quantificável). É dever do jornalismo procurar a verdade, mas isso não lhe dá o direito de se dizer detentor da verdade. A teoria do espelho flerta com essa pretensão. Veja a Rede Globo e a Veja, que usam a teoria do espelho como um escudo ideológico para mascarar a manipulação dos fatos. A teoria do espelho mascara o fato de que toda matéria jornalística, por mais que tenha sido checada, e por mais que o redator se preocupe com a veracidade das informações, está passível de erros. Daí por que se fala em versões.