EDGAR MORIN E O PENSAMENTO COMPLEXO parte 2

 

A segunda parte da teoria de Edgar Morin refere-se à crítica à separabilidade.

A idéia de que, para resolver um problema é necessário separa-lo em pequenas partes e resolve-las uma a uma remonta ao filósofo francês René Descartes.

Em seu livro Discurso do método, ele apresenta os quatro aspectos sua forma de pensar, elaborada para substituir a lógica escolástica, característica da Idade Média.

O segundo e o terceiro item vão estabelecer os alicerces da separabilidade: Dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto possível e necessário para resolve-las; conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos e supondo, também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.

Esses dois itens vão inaugurar a divisão do saber. Para conhecer melhor o corpo humano, deve-se dividi-lo em partes: estuda-se primeiro o sistema respiratório, depois o sistema reprodutor, depois sistema nervoso e assim por diante. A junção de todas essas pesquisas nos daria o conhecimento sobre o corpo humano.

Com o pensamento cartesiano, surge também a especialização. Esse foi um fator importante no desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade ocidental. Ao dividir o saber em pequenas partes e estuda-las aprofundadamente foi possível um grande avanço no conhecimento científico.

Mas a especialização logo se revelou um beco sem saída. Os cientistas, ao mesmo tempo que se aprofundavam na sua área de saber, perdiam também o contato com o todo. Na frase de Bernard Shaw (apud Latil, 1968, p. 17) "O especialista é o homem que sabe cada vez mais coisas num terreno cada vez menor, o que o fará saber tudo... sobre nada".

Ou seja, o professor de história medieval já não sabia nada de história contemporânea, o pesquisador neurologista não entendia o funcionamento do sistema respiratório. A lógica da separabilidade fez com que ciência perdesse a noção do todo. As chamadas "inteligências enciclopédicas", pessoas que sabiam um pouco de tudo, como o escritor Monteiro Lobato, se tornaram cada vez mais raras.

Uma resposta a isso foi o surgimento da cibernética e da teoria dos sistemas, cuja posição pode ser definida na frase "O todo é maior do que a soma das partes". O todo é maior porque contém algo que não existe nas partes: as relações entre elas. Nenhum sistema é totalmente isolado e fenômenos aparentemente díspares acabam influenciando um ao outro. Na frase de Blaise Pascal: "Sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem
conhecer cada uma das partes".

A teoria dos sistemas demonstrou que os fenômenos são processos de retroação contínua. É, portanto impossível em algumas situações estabelecer a causa e a conseqüência. O que é causa de um fenômeno é também causada por outro fenômeno numa rede de interações infinita.

Na escola a lógica da separabilidade gerou a idéia de que as disciplinas são isoladas. Desde pequenos somos condicionados a ver as disciplinas como compartimentos estanques. Geografia é geografia, história é história. Certa vez, em uma aula de redação jornalística um aluno me censurou por ter corrigido um erro de ortografia no texto dele. Na sua opinião, só quem poderia corrigir esse tipo de erro seria o professor de Língua Portuguesa.

Um outro exemplo: um amigo, professor da disciplina Direitos Humanos em um curso de Administração sócio-ambiental me dizia que os alunos indagavam dele que importância poderia ter a disciplina para o curso. Eles não compreendiam que o ser humano também faz parte do ecosistema e nenhum programa de preservação ambiental pode ser formulado sem levar em consideração a dignidade das pessoas que vivem naquela região.

Como conseqüência da separabilidade, a responsabilidade sobre as decisões, incompreensíveis para os leigos, são deixadas nas mãos de especialistas, que não consideram as conseqüências amplas de suas ações.

A escola, ao invés de preparar seus alunos para a complexidade do mundo atual, em que tudo se relaciona, (em que um conflito no Oriente Médio pode gerar uma atentado em Nova York, que por sua vez provoca uma reestruturação geopolítica do mundo) condiciona-o a ver os assuntos de maneira isolada.

Para Edgar Morin, o que temos vivido até agora é a interdisciplinaridade, em que as disciplinas estão juntas, mas cada uma olha para o seu próprio umbigo.

Em seu lugar, ele propõe a polidisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Na polidisciplinaridade as disciplinas ainda existem isoladamente, mas os alunos as usam em conjunto para resolver problemas. Uma escola que leve seus alunos para analisar seu bairro do ponto de vista da geografia, história, língua portuguesa (as expressões mais utilizadas por seus moradores, por exemplo) está praticando a polidisciplinaridade. Se, ao invés de fazer trabalhos isolados para o professor de geografia, história e língua portuguesa, o aluno fizer um trabalho só, que envolva os três tipos de conhecimentos, estará praticando a transdisciplinaridade.

Claro que a transdisciplinaridade não é fácil de se implantar na escola. Para começar, exige que os próprios professores tenham noção de como suas disciplinas se relacionam. Além disso, trabalhos desse gênero costumam apresentar uma rejeição por parte daqueles professores que se sentem inseguros e acham que, ao fazer um trabalho em conjunto com outros professores, estarão deixando claras suas próprias fraquezas.

Apesar das dificuldades, a união entre as disciplinas é cada vez mais necessária. Só através dela o homem poderá avançar mais na ciência e na tecnologia. Só através dela é possível evitar os erros do passado, como os grandes projeto instalados na Amazônia, que não consideravam nem as populações locais nem o eco-sistema da região.