EDGAR MORIN E O PENSAMENTO COMPLEXO - parte 3

A terceira parte da crítica de Edgar Morin à ciência clássica diz respeito à lógica indutiva. Desde Galileu a indução tem sido considerada o procedimento científico mais correto.

Na indução, parte-se de casos isolados, de singularidades, para uma teoria geral, ou seja, um universal. Ou seja, o cientista pesquisa diversos casos e, depois de investigar vários deles, chega a uma lei que possa ser aplicada a todos os outros casos semelhantes no futuro.

Umberto Eco costuma exemplificar a indução imaginando um saco sobre uma mesa. Não sei o que há dentro do saco. Para saber o que há lá dentro, pela indução, devo retirar um dos objetos de dentro e ou outro e outro. Assim, por exemplo, tiro algo de dentro do saco e é um feijão branco. Tiro outro e é outro feijão branco e assim por diante. A determinado momento, paro a pesquisa e concluo que dentro do saco há apenas feijões branco.

A grande pergunta da indução é: quantos feijões é necessário tirar para se concluir que há apenas feijões brancos dentro do saco? Quantos casos singulares é necessário pesquisar para se chegar a uma conclusão geral sobre o assunto? Ninguém soube responder a esse questionamento de maneira lógica por uma razão muito simples: ele não tem resposta lógica.

O filósofo inglês Karl Popper percebeu que essa falha da indução fazia com que ela não fosse científica. Por mais que eu pesquise milhões de casos, jamais terei certeza de que o próximo caso não irá contradizer todas as minhas observações anteriores. Para Popper, a ciência só pode se utilizar da dedução, em que se faz uma generalização e depois vai se pesquisar casos singulares. Se os casos baterem com a hipótese, dizemos que ela foi corroborada (não confirmada, pois é possível que estudos futuros cheguem a conclusões diferentes). Se não baterem com a hipótese, dizemos que a mesma foi falseada. Popper demonstrou que só é científico aquele conhecimento que pode se mostrar falho, ao contrário do conhecimento teológico, que não pode ser falseado.

Edgar Morin aproveitou a crítica de Popper à indução em sua filosofia, mas também fez crítica à dedução, citando o paradoxo lógico do mentiroso de Creta. Imagine que um cretense diz que todos os cretenses são mentirosos. Se ele estiver dizendo a verdade, está mentindo, pois ele também é cretense e, pela lógica, deveria estar mentindo. Se ele estiver mentindo, está dizendo a verdade. É uma situação que não tem escapatória lógica.

Embora admita que a dedução é mais confiável que a indução, Morin propõe uma nova lógica, menos classificadora, que não fosse baseada no OU/OU, mas no E/E. Uma lógica complementar e não excludente, que permitisse termos contrários, como: “A vida surge da morte”. De fato, a morte do grão é o início da semente, que irá dar origem a outra planta. A cada dia nossa pele se renova em grande parte. A morte das células da epiderme que nos permite continuar vivendo.

Da mesma forma, a frase de Chico Science “Eu desorganizando vou me organizar” ganha um significado pela lógica complementar. A ciência tem demonstrado que processos caóticos/entrópicos são a base da criação do novo. É impossível reorganizar uma estante sem retirar dela todos os livros, em outras palavras, bagunçá-la.

ivancarlo.weblogger.com.br