A GUERRA DOS GIBIS

O livro A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Júnior (Companhia das Letras) descortina os motivos políticos e empresariais responsáveis por um dos momentos mais vergonhosos da história cultural brasileira: a perseguição às histórias em quadrinhos.

Embora existissem iniciativas isoladas desde a década de 30, quando os quadrinhos de aventura chegaram ao Brasil, a campanha contra os quadrinhos só tomou fôlego na década de 40, graças a uma briga entre Roberto Marinho, do Jornal O Globo, e Orlando Dantas, do Diário de Notícias. Dantas estava ganhando mercado ao promover concursos em que os leitores do jornal concorriam a prêmios em dinheiro. Preocupado com a concorrência, Marinho usou sua influência junto ao governo Vargas para fazer com que fossem proibidos os prêmios em dinheiro.

Dantas, agora sem o principal atrativo de seu jornal, passou a atacar Marinho pelo que considerou o seu ponto fraco: o fato de seu concorrente ser um dos principais editores de histórias em quadrinhos do Brasil (o outro era Adolfo Aizen, da Ebal). Dantas, ex-repórter de Assis Chateaubrind, sabia que a melhor forma de um jornal sair de uma situação financeira difícil era comprar briga com um concorrente de peso. O Diário de Notícias passou a acusar os gibis de provocarem preguiça mental, inculcarem valores estrangeiros nos jovens e incentivarem a violência. Na verdade, Dantas não tinha nada contra quadrinhos, e, aliás, tinha sido um dos pioneiros a publicar tiras de jornais no Brasil (o humorístico Popeye), mas ele logo descobriu que a melhor forma de chamar atenção para si e alfinetar o rival era fazer acusações aos gibis.

Passou a ser moda falar mal dos gibis. Até mesmo quem nunca tinha lido uma revista se apressava a dar sua opinião. A jornalista Ivone Jean, do Correio da Manhã, por exemplo, escreveu um artigo no qual pedia reconhecimento público por ter roubado um gibi do consultório de um pediatra, impedindo assim, que as crianças tivessem contato com a leitura. Além de se vangloriar do crime, a jornalista admitia que sua birra se devia ao fato dela não compreender o código quadrinístico: “Não sei ler histórias em quadrinhos! Aprendi a ler da esquerda para a direita e linha após linha. As legendas atrapalhadas que ilustram os desenhos são impressas em caracteres estranhos e dançam em todos os sentidos”.

Mas a campanha contra os gibis teria seu momento mais grave a partir de 1953. Dessa vez, além de Dantas, Roberto Marinho teria contra si Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Assim como acontecera com o Diário de Notícias uma década antes, o diário de Wainer estava tomando leitores de O Globo, graças a inovações editoriais. Marinho concentrou sua artilharia no concorrente e descobriu que Wainer não era brasileiro, pois chegara ao Brasil com dois anos de idade. Na época a legislação proibia estrangeiros de terem veículos de comunicação no Brasil.

Wainer vingou-se empreendendo uma dura campanha contra as histórias em quadrinhos que durou anos. Para isso foi destacado o repórter Pedro Morel. Este percebeu que a estratégia de maior impacto era acusar os gibis de serem responsáveis pela criminalidade infantil. Citando as pesquisas do alemão naturalizado norte-amerincano Fredrick Whertan, Morel defendeu que as histórias em quadrinhos ensinavam as crianças como cometerem crimes. Hoje as pesquisas de Whertan são motivo de riso entre os psicólogos e são famosas pelos inumeráveis erros metodológicos, mas na época suas denuncias eram levadas a sério.

Para provar o que dizia, Morel foi ao Reformatório de menores Saul de Gusmão atrás do maior criminoso juvenil da época, um tal de Lilico, apelidado de “Terror do subúrbio”. Para sua decepção, encontrou o rapaz jogando futebol, e não lendo gibis. Mas nem por isso achou que seria o futebol o responsável pelos crimes de Lilico. Os responsáveis deviam ser os gibis.

Em outra tentativa de provar a responsabilidade dos quadrinhos, Morel entrevistou o curador Carlos Susekind de Mendonça, que há três anos trabalhava com menores delinqüentes. O curador, claro, responsabilizou os gibis pelo aumento da delinqüência. Em entrevista a Gonçalo Júnior, seu filho, Carlos Sussekind, contou que seu pai não tinha nada contra os gibis. Pelo contrário, todos os dias, quando ia comprar pão, aproveitava para lhe comprar uma revista em quadrinhos (e, diga-se de passagem, nem por isso seu filho se tornou marginal).

Apesar da total falta de embasamento e de serem resultados de uma briga de mercado, as denúncias deram resultado. Nas portas das igrejas eram distribuindo panfletos orientando pais a não deixarem seus filhos lerem quadrinhos. Em alguns locais os professores eram orientados a tirarem cinco minutos diários de suas aulas para falarem dos riscos da leitura dos gibis.

Roberto Marinho defendia-se como podia, na sua maneira enérgica, procurando descobrir pontos fracos dos adversários. Adolfo Aizen, ele também um imigrante judeu, assim como Wainer, temia que descobrissem sua origem estrangeira, e adotou uma política de diplomacia. Todas as quartas-feiras autoridades eclesiásticas, políticos e intelectuais eram convidados a almoçar na sede da editora. Além disso, a Ebal publicava versões quadrinizadas de romances nacionais e histórias de santos e padres, além de uma versão da Bíblia em quadrinhos. Para evitar reações negativas, escreveu um código severo que deveria ser seguido em todas as suas revistas. Histórias em quadrinhos eram retocadas e qualquer cena que pudesse causar controvérsia era censurada. Ainda assim, os moralistas de plantão não deixavam Aizen em paz. Em 1954 ele publicou na revista Epopéia, com episódios da história universal, uma reprodução do quadro A grande odalisca, de Montalbán. O detalhe mais ousado era um seio visto em silhueta, mas a imagem chocou um padre carioca, que, no sermão da missa de domingo, chamou a revista de pornográfica.

Hoje, dezenas de anos depois dos acontecimentos, o livro de Gonçalo Júnior é valioso relato dessa guerra. Um relato que mostra como a ignorância e intolerância podem prejudicar toda uma nova e valiosa linguagem.

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