O novo macarthismo
Ivan Carlo

A revista Carta Capital publicou matéria que confirma as suspeitas levantadas por mim em minha coluna anterior: os EUA estão vivendo um novo macarthismo.

Para quem não sabe, o senador McCarthy foi o artífice do período mais negro da história norte-americana, uma verdadeira caça às bruxas que levou à prisão escritores, roteiristas de cinema, diretores, atores. Para se ter uma idéia, Charles Chaplin foi obrigado a fugir do país para não ser preso.

Na década de 50 o alvo da extrema-direita norte-americana eram os supostos comunistas. Agora são os pacifistas. Recentemente a Screen Actors Guild, o sindicato das estrelas e anônimos de Hollywood, denunciou pressões dos estúdios contra profissionais de cinema que venham se manifestando contra a guerra do Iraque.

Na imprensa, a vítima foi o cartunista Art Spiegelman, do The New Yorker. Depois de ter vários cartuns sobre a guerra censurados, o desenhista pediu demissão. É bom lembrar que Spiegelman é autor da graphic novel Maus, em que conta, na forma de quadrinhos, o suplício vivido pelos judeus nos campos de concentração nazista. A HQ é considerada pela crítica como uma das melhores reportagens já escritas sobre o assunto. Como judeu, Spiegelman não tem qualquer simpatia por Saddan Hussein. Mas o ponto de vista crítico de seus cartuns despertou a ira dos governistas.

Na TV, a vítima foi Phil Donahue, da NSNBC. Depois de criticar a guerra, Donahue foi avisado de que será demitido.

Ainda na TV, uma anúncio do grupo Not In Our Name (Não em nosso nome), grupo pacifista, teve sua veiculação vetada pela MTV. Detalhe: o anúncio seria pago.

Nem mesmo os livros escaparam. A biblioteca pública de Santa Clara, na Califórnia, estampou um aviso a seus freqüentadores de que tudo que lêm é monitorado pelo FBI. Se um leitor levar para casa um exemplar do Alcorão ou do Manifesto Comunista, pode ser preso, sem direito a advogado ou julgamento.

Pelo jeito, esse é o tipo de democracia que o Bush Júnior quer para o mundo. E certamente será uma democracia nesse modelo que será implantada no Iraque após a derrota de Saddan.

Democracia, para quem não sabe, é dar o direito a todos de se expressarem livremente. O contrário disso é ditadura.

O novo marcathismo só é possível por causa do terror. Bin Laden foi um anjo para Bush. Transformou-o, de um presidente palhaço, em líder nacional e permitiu à direita norte-americana realizar seu plano de estender o seu modelo de “democracia”ao resto do mundo.

Para manter os planos, Bush precisa do terror. Para isso serve a mídia. Temos visto a paranóia que a mídia tem implantado na cabeça de cada novaiorquino. Apesar de não ter havido nenhum atentado terrorista depois de 11 de setembro (mesmo com início da guerra), o governo norte-americano, com ajuda da mídia, tem incentivado o terror na população. Americanos estocando comida, comprando plástico e fita adesiva para tampar janelas em caso de armas químicas... alguém deveria dizer a eles que respiramos oxigênio e expelimos gás carbônico. Pessoas trancadas em uma casa, com plástico e fitas adesivas nas janelas e portas vão acabar morrendo não por causa de armas químicas, mas simplesmente porque não vai haver mais oxigênio para ser respirado. Não é possível que os governantes não saibam disso. Recomendações como essa só aumentam o medo e a paranóia.

Bush vai gostar do terror, e, quando o medo diminuir e não houver mais atentados, vai se sentir tentado a simular um atentado para deixar as coisas nos eixos. Para quem não se lembra, isso já aconteceu no Brasil. Quando a ameaça comunista havia sido derrotada, os militares tentaram realizar um atentado terrorista, que deu errado. Foi o caso Rio-Centro. Se tivesse dado certo, o atentado teria estendido a ditadura por muitos anos a mais.