A MÉTAFORA DO RELÓGIO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

“E enquanto ele trabalhava
Na sua tarefa escolhida
A multidão se aglomerava
Perguntando segredos da vida

E ele falou simplesmente
Destino é a gente que faz
Quem faz o destino é a gente
Na mente de quem for capaz”

Raul Seixas

A noção do universo como relógio deu origem à idéia ao determinismo científico, expresso publicamente pela primeira vez pelo cientista francês Laplace. Acreditava-se que a natureza seguia regras fixas que podiam ser descobertas com o uso da razão, como no caso de um relógio. Para Laplace, uma inteligência que conhecesse em determinado momento todas as forças da natureza e posição de todas as partículas do universo e que fosse capaz de fazer os cálculos necessários, poderia exprimir em uma só fórumula o movimento de tudo, assim, tanto o presente quanto o passado e o futuro não teriam segredos para ela.

A inteligência laplaciana seria onisciente, capaz inclusive de prever o futuro, mas impotente para realizar alterações no mundo à sua volta. Uma vez que tudo é determinado, restaria a ela apenas um olhar entediado sobre o porvir, pois nada poderia ocorrer que já não estivesse previsto.

Essa visão determinística orientou a criação das ciências sociais. Se era possível descobrir leis imutáveis com as quais podia-se prever o funcionamento dos astros, devia haver também leis determinísticas que governassem o comportamento do homem e da sociedade.

John Locke foi um dos autores que influenciaram o transporte da visão mecanicista da física para a análise da sociedade. Locke dizia que a mente humana, no nascimento, é uma tabula rasa em que o conhecimento é gravado, uma vez adquirido através da experiência com os sentidos. Para Locke, todos os homens são iguais ao nascer e, para seu desenvolvimento, dependem inteiramente do seu meio ambiente. Assim, o meio em que nascemos e vivemos determina nossas atitudes.

Posteriormente, a doutrina mecânico-determinista teve grande influência sobre Augusto Comte, segundo o qual a sociedade estava fadada a passar por três estágios: o teológico, o metafísico e o positivo, ou científico.

Assim, tanto a sociologia quanto a psicologia das massas surgem como ciências cuja existência está calcada na idéia de determinismo. Diante de situações iguais, as pessoas reagiriam de maneira igual. Essa percepção foi importante, por exemplo, nos primeiros estudos sobre a influência dos meios de comunicação. Para a teoria hipodérmica, a todo estímulo da mídia, a massa, atomizada, reagiria da mesma maneira.

A determinação, que era social com Locke (ou seja, o homem é fruto de seu meio-ambiente), passou a ser biológica com a eugenia, doutrina que norteou o nazismo. Para a eugenia, os comportamentos das pessoas eram determinados pela sua herança genética. Filhos de estupradores seriam estupradores. Filhos de gênios seriam também eles geniais.

Até mesmo autores que não se filiavam ao positivismo, como Marx, viam a sociedade sob os óculos do determinismo. Para a teoria marxista, as contradições internas do capitalismo levariam a sociedade a, inevitavelmente, avançar ao estágio do socialismo.

O modelo do relógio nas ciências sociais teve como conseqüência o distanciamento entre o pesquisador e aquilo que está sendo pesquisado. Isso já estava implícito na fala de Augusto Comte, segundo o qual “não podemos estar à janela e ver-nos passar pela rua. No teatro, não podemos ser, ao mesmo tempo, ator no palco e espectador na sala”. Para evitar essa intromissão do subjetivo, o cientista deveria manter-se neutro com relação ao seu objeto de pesquisa. A palavra objeto é emblemática, pois mostra como as pessoas seriam vistas: não como seres dotados de livre-arbítrio, mas como peças de um jogo determinista. Da mesma forma, o pesquisador não deveria ter qualquer tipo de relacionamento ou proximidade com as pessoas que estavam sendo observadas.

Como forma de aproximar as ciências sociais do modelo mecanicista buscou-se, igualmente, transformar os dados em números, aproximando a pesquisa da exatidão da física. As ciências humanas e sociais, então, passam a buscar a quantificação e a repudiar a pesquisa qualitativa.

De fato, ainda hoje a imagem que se tem da sociedade é muito próxima do relógio newtoniano. Políticos, cientistas e marketeiros procuram descobrir como reagem as massas e como é possível controlá-las.

Entretanto, a base física, que deu origem ao determinismo social, vem sendo criticada há quase um século.

Curiosamente, a crítica ao modelo determinista ocorre no mesmo período histórico em que a ciência demonstra que o tempo não é absoluto.

Talvez o ponto mais importante dessa crítica ao modelo clássico tenha sido o princípio da incerteza, de Heisenberg. Em 1926, o físico alemão Werner Heisenberg afirmou que era impossível medir a velocidade e a posição de uma partícula com exatidão. Isso porque, para ver onde está a partícula, é necessário incidir luz sobre ela, o que afeta sua velocidade ou sua posição.

O princípio da incerteza deixou o Demônio de Laplace sem norte. Se não era possível saber ao mesmo tempo, a velocidade e a posição de uma partícula, como prever o futuro?

Mais recentemente, os estudos sobre buracos negros terminaram de enterrar o demônio laplaciano. Stephen Hawking descobriu que os buracos negros não são completamente negros. O que pensamos como espaço vazio não é realmente vazio, mas é preenchido com pares de partículas e antipartículas. Estas aparecem juntas em algum ponto do espaço e tempo, movem-se separadamente e então, juntam-se e aniquilam-se.

De tempos em tempos uma dessas partículas escapa do buraco negro. Embora seja possível medir a partícula que saiu, é quase impossível analisar sua partícula par, que permaneceu no buraco.Isto significa que não podemos fazer nenhuma previsão definitiva sobre a partícula que escapa do buraco, pois não há combinação de posição e velocidade de somente uma partícula que possamos predizer definidamente, porque a velocidade e a posição dependerão da outra partícula, que está escondida no buraco negro.

Segundo Hawking, todas as regiões do espaço estão cheias de buracos negros, que aparecem e desaparecem. Isso tornaria o sistema ainda mais indeterminado. Como prever o futuro do universo se grande parte da informação necessária para isso está escondida em buracos negros?

Às descobertas da física quântica e dos estudos sobre buracos negros, soma-se as descobertas da teoria do caos sobre os efeitos borboletas, ou dependência sensível das condições iniciais, que tornam praticamente impossível prever eventos dinâmicos.

Assim, embora as ciências duras se afastem cada vez mais do modelo mecânico-determinista, as ciências sociais ainda correm atrás da própria sombra, buscando leis que possam servir para determinar o comportamento do ser humano.

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