OS BONS MORREM JOVENS

No dia 11 de outubro de 1996 Renato Russo morreu. Na época eu publicava o fanzine Idéias de Jeca-tatu e fiz uma edição especial sobre o cantor com um texto meu e uma HQ de Antonio Eder. Agora, seis anos depois, para marcar a data, resgato esse texto, escrito ainda sob o impacto da notícia:

Curioso. O nome do último disco de Renato Russo é A Tempestade, o mesmo título da última peça de Shakespeare. Não deve ter sido coincidência. Renato Russo conhecia o trabalho do bardo inglês, ele que já foi professor de inglês. Aliás, a letra da canção Feedeback song for a duing friend imitava o estilo de Shakespeare. Uma homenagem.

Renato Russo morreu. É o primeiro ídolo de minha geração a ir embora. Claro, houve Cazuza. Mas acho que a morte dele, talvez por ser esperada, não causou tanto impacto.

Para mim, a Legião teve importância única. Quando tinha 14/15 anos, eu costumava dizer que não gostava de música. O que se ouvia em casa era, em geral, Reginaldo Rossi. E Erasmo Carlos, nos dias mais eruditos.

Então, um dia eu estava na casa de um amigo e ele me chamou para ouvir uma música no rádio. Era Eduardo e Mônica. Não saberia dizer o que senti. A arte é imperfeita sua maior imperfeição é não conseguir transmitir nossos sentimentos com exatidão. De modo que a única arte realista, nesse sentido, é a expressionista. Ela exagera os eventos, na esperança de que o leitor, o ouvinte, o espectador, compreenda os sentimentos do artista, de tão berrantes eles estão ali. Eu teria de ser expressionista para explicar o que aconteceu naquele momento, mas usarei apenas uma frase: de repente, comecei a gostar de música.

Cantávamos na frente da escola, nós que éramos tão tímidos... aprendi a sintonizar o rádio, em busca de Eduardo e Mônica. Os gostos revelavam o caráter: uns gostavam mais dos Paralamas do Sucesso, que eram mais melódicos (e, estou tentado a dizer, românticos); outros gostavam mais dos Titãs, que eram mais rebeldes. Eu, Legião, intimistas.

Eles embalaram meus momentos tristes e felizes e me ensinaram a gostar de música. Ainda é cedo virou música tema do meu primeiro namoro sério (o que, por sinal, não era um bom agouro...).

Renato Russo não morreu. É difícil acreditar que morreu alguém que está cantando em meu walkman: “Viver é uma dádiva fatal. No fim das contas, ninguém sai vivo daqui”. O artista não morre, ele sobrevive em sua obra. Nasci muitos anos depois da morte de Lobato e, no entanto, é como se eu o conhecesse, como se pudesse conversar com ele, como se fôssemos amigos.

Da mesma forma, Renato Russo não morreu. O que morreu foi sua sombra. Somos como os pobres coitados do Mito da Caverna, de Platão. Presos no fundo da caverna, eles choram e lamentam quando não vêm mais a sombra de um amigo. E não sabem que não podem ver sua sombra apenas porque ele saiu da caverna e foi sentir o calor do sol, andar nos prados e beber água cristalina dos riachos.

Não deveríamos lamentar a morte de Renato Russo. No entanto, a cada um que se vai, a caverna vai se tornando mais escura...

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