Preconceito contra os quadrinhos

Há uma tendência generalizada por parte de pais e professores de que as histórias em quadrinhos são nocivas. Da mesma forma, as HQs são consideradas “coisa de criança”e os que permanecem lendo esse tipo de mídia na idade adulta são vistas com desconfiança, como se fossem crianças que não tivessem crescido.

As histórias em quadrinhos são acusadas de desestimular a leitura (as crianças ficariam preguiçosas ao lerem gibis) e a criatividade, uma vez que já traz o desenho das cenas, deixando pouco para a imaginação do leitor.

Esses dois pontos de vista já foram suficientemente falseados. Alguns dos maiores escritores da atualidade foram leitores ávidos de quadrinhos. Ray Bradbury, talvez o melhor escritor norte-americano do século XX, dizia que era filho de Flash Gordon. Umberto Eco, badaladíssimo pelos intelectuais, é um grande fã de quadrinhos. No Brasil há vários escritores famosos que são fãs de quadrinhos, Jô Soares entre eles.

Quanto aos quadrinhos não estimularem a imaginação, os pesquisadores têm percebido exatamente o oposto. Embora os desenhos mostrem o cenário e os personagens, o movimento, a ação ocorre na cabeça do leitor. É no espaço entre um quadrinho e outro que a imaginação do leitor trabalha. Na época em que eu morava em Curitiba, eu e o grande desenhista Antonio Eder gostávamos de fazer uma brincadeira com nossos alunos em cursos de quadrinhos (muitos deles professores interessados em utilizar os gibis em sala de aula). Mostrávamos um garoto, visivelmente apertado, entrando em um banheiro. No desenho seguinte mostrávamos ele saindo com uma visível expressão de alívio. Perguntávamos então à platéia o que havia acontecido. A resposta inevitável era: “Ele fez xixi” ao que respondíamos: “Não, foram vocês que fizeram xixi. Nós não mostramos isso. Vocês completaram a cena em suas cabeças”.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília no ano de 2001, a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação só veio confirmar o que os leitores de quadrinhos já sabiam há muito tempo.

O principal resultado da pesquisa foi a constatação de que os alunos leitores de quadrinhos têm desempenho escolar melhor do que aqueles que usam apenas o livro didático. Em alguns casos, o benefício obtido com a leitura de HQ é maior que o existente quando há contato dos estudantes somente com livros e revistas. Entre os alunos da quarta série da rede pública, os gibis quase dobram a performances.

Além disso, nas provas do MEC, o percentual das melhores foi de 17,1% entre os que lêm quadrinhos contra 9,9% entre os que não têm costume de ler quadrinhos.

Na verdade, a pesquisa só veio corroborar o que já diziam várias outras pesquisas, feitas em diversos países: os quadrinhos são um fator importante na formação intelectual dos alunos. Curiosamente, os que criticam os quadrinhos são justamente aqueles que não têm o hábito da leitura. Ou seja, atualmente só acredita ainda que os quadrinhos são prejudiciais pessoas que têm formação intelectual baixíssima. Não fosse o preconceito, que, infelizmente ainda domina boa parte dos professores, os quadrinhos poderiam ser usados com sucesso na sala de aula, como o são no Japão, em que os quadrinhos (que lá se chamam mangás) são utilizados até em cursos para executivos de multinacionais.
ivancarlo.weblogger.com.br