O MUNDO COMO RELÓGIO

Durante séculos, a visão dominante sobre o universo era de que este se tratava de uma máquina. Essa ótica mecanicista remonta ao filósofo René Descartes.

À época de Descartes, a fabricação de relógios havia alcançado um alto grau de sofisticação e fascinava a todos por sua perfeição. Isso fez com que o filósofo comparasse o ser humano ao mecanismo do relógio: “Considero o corpo humano uma máquina (...) Meu pensamento (...) compara um homem doente e um relógio mal fabricado com a idéia de um homem saudável e um relógio bem-feito”.

A partir de então, todos os pensadores e cientistas vão utilizar o relógio como modelo da natureza. Newton irá comparar o relógio com o movimento dos planetas. Para ele, o universo era gigantesca máquina, totalmente causal e determinada. Se o mundo físico, era uma máquina, Deus era o relojoeiro, que, no início dos tempos, criou todos os átomos do universo e deu a eles suas características e regras de funcionamento.

Posteriormente, a figura do relojoeiro se tornou desnecessária e sobrou apenas a idéia do universo como relógio.

Mas o que é um relógio? Essencialmente, é uma máquina previsível. Qualquer relógio em estado normal irá ter sempre o mesmo comportamento: os ponteiros seguirão sempre no sentido horário, o ponteiro dos segundos andará mais rápido que o ponteiro dos minutos, que andará mais rápido que o ponteiro das horas.

Para entender o relógio, basta desmontá-lo e analisar suas peças. Essa característica do relógio deu origem à idéia de “separar para conhecer”, base do pensamento cartesiano. Assim, qualquer fenômeno poderia ser compreendido pela decomposição e análise de suas partes.

Por outro lado, a visão mecanicista do universo deu origem à idéia da natureza como serva do homem. Essa postura já havia sido antecipada por Francis Bacon, segundo o qual a natureza deveria ser acossada em seus descaminhos, obrigada a servir e reduzida à obediência. O objetivo do cientista era extrair da natureza, sob tortura, todos os seus segredos. Detalhe: Bacon era inquisidor e, para ele a natureza deveria ser tratada da mesma forma que a bruxas.

Ótimo exemplo dessa visão do mundo é o mapa dos EUA: a separação dos estados é em linha reta, desconsiderando a questão geográfica. Enquanto a maioria dos países utiliza rios e montanhas para fazer essa divisão, os norte-americanos fazem a divisão utilizando a lógica cartesiana de forçar a natureza a se curvar diante de seus desígnios.

Os habitantes de Nova York talvez tenham sido os que mais encarnaram essa postura. Ao saber que seria inaugurado um novo porto no sul dos EUA eles, para fazer com que seu porto voltasse a se tornar importante, simplesmente fabricaram um rio ligando o oeste com Nova York.

Essa era a idéia por trás dos chamados samsionistas, cujas realizações incluem o canal do Panamá, que liga o oceano pacífico ao atlântico.

Para o samsionistas, a natureza deveria se curvar diante da vontade do homem.

A idéia de que o homem deveria respeitar a natureza é muito recente e marca a decadência do relógio como modelo de mundo. No novo modelo, as coisas são vistas pelas suas relações entre si e os fenômenos deixam de ser vistos como deterministas. A natureza, e especialmente, a natureza humana, não é um relógio cuja análise das peças permite a previsão de seus movimentos futuros.

Autores como Edgar Morin e Fritjof Capra são alguns dos novos pensadores que combatem a visão mecanicista do mundo, defendendo a idéia de que os fenômenos são partes de sistemas, portanto, inter-relacionados.

Em um exemplo do filme O ponto de mutação (baseado na obra de Capra), a visão sistêmica veria a árvore não de maneira isolada (como o faz a ciência clássica), mas por suas trocas sazonais entre com a terra, o céu e os animais. Um pensador com o novo paradigma veria a árvore em sua relação com toda a floresta. Veria a árvore como lar dos pássaros e habitat de insetos. Para quem analisasse a árvore como algo isolado, não haveria sentido na árvore produzir tantos frutos, já que somente uma mínima parcela deles dá origem a frutos. Mas em uma perspectiva complexa, a abundância de frutos faz sentido, pois esses servem de alimentos para centenas de animais, que por sua vez se encarregam de espalhar as sementes das árvores pela floresta, perpetuando as espécies vegetais.