Quem é do bem não se amofina
 

Era um final de tarde desse nosso inverno chuvoso, cujos cenários molhados das ruas dão a impressão de que a cidade acaba de ser lavada. Pois bem, caminhava com minha filha de sete anos e nossa querida Cleide, de 17, de volta para casa. No final da rua Jovino Dinoá um lamaçal que deve ter uns dez anos de existência impedia a passagem por um quarteirão inteiro, até a avenida Piauí, interrompendo o acesso ao bairro do Pacoval.

Foi então que a Cleide propôs: Tia! Vamos pela ponte. A ponte a que ela se referia é uma passarela de madeira que começa na parte lamacenta da Jovino, corta pelo meio do que deveria ser um quarteirão e termina do outro lado na avenida Maranhão, paralela a Piauí. No trajeto, mais uma área de invasão cheia de casas aglomeradas como milhares em Macapá. Perguntei onde ficava a ponte e minha filha respondeu: É numa área de ressaca, mãe, logo ali.

Esse fato banal aconteceu justamente no período em que fervilhava em Brasília o pedido de cassação dos mandatos do senador João Alberto Capiberibe e da deputada Janete Capiberibe, acusados da compra de dois votos por vinte e seis reais cada durante as eleições de 2002.

A senha dessa conversa é área de ressaca. Que fique claro, minha filha não é especial por saber identificar uma área de ressaca aos sete anos de idade. De uns dez anos para cá esse termo, assim como conceitos mais complexos, de biodiversidade a ecossistemas, são comuns para crianças que cresceram respirando os ares de um Amapá preocupado com as questões ambientais, com a saga dos castanheiros, com a cobertura florestal, enfim, com realidades que até então não batiam às portas de nosso imaginário.

Em 1995 Capiberibe assumiu o governo do Amapá cumprindo a promessa de romper com a trajetória autoritária de governos indicados ou eleitos sobre o rescaldo da ditadura militar. Cumpriu mesmo. O ano de 95 foi inaugural sob vários aspectos para a história do Amapá. Nele foram elaborados os eixos principais do Programa de Desenvolvimento Sustentável, que viria a dar o tom de todas as políticas públicas desenvolvidas a partir de então.

Todos, sem exceção, que assumiram postos no governo de Capiberibe, tiveram que estudar o bê-á-bá da sustentabilidade para compreender como o governo iria desenvolver o estado sem agredir seu meio ambiente, sem vender seu solo, sem desapropriar sua gente, sem destruir suas florestas e, ainda por cima, gerar emprego e renda.

Muita gente estranhou. Alguns não levaram muito a sério no começo, achando que talvez o PDSA não passasse de retórica. Outros resolveram encarar a novidade e mergulhar de cabeça em textos, palestras e todo material que surgia. Era um mundo novo se descortinando diante de uma esquerda acostumada apenas com os manuais de combate ao imperialismo que nunca falaram em meio ambiente e qualidade de vida.

Pois não é que o imperialismo estava aqui bem debaixo dos nossos narizes, levando madeira ilegalmente, usurpando as populações tradicionais, invadindo as áreas indígenas, poluindo de arsênio as águas de nosso doce Amazonas, roubando, roubando e roubando até o milite de nossa alma que, ainda bem, nada tem de pequena.

Foram oito anos de PDSA. Uma vida para quem não sabia nada desses horizontes ecológicos. Um começo de vida para quem estava dando os primeiros passos no aprendizado das vogais, das primeiras letras e dos primeiros conceitos de geografia e história. Sorte das crianças alfabetizadas nesses anos. Alfabetizadas em todos os bons sentidos dos novos conhecimentos.
Na escola e em casa os pequeninos cresceram não mais ouvindo falar em progresso como um monte de concreto oprimindo as cidades e moto-serras arrasando florestas para plantio de culturas estranhas. Mas, de um progresso diferente, aquele que enxerga o homem em sua plenitude e em sua simbiose com a natureza. E isso, não tem quem tire.

Naquele período, enquanto o governo aprumava os rumos do desenvolvimento sustentável, Janete, ainda na Assembléia Legislativa conseguia aprovar a Lei de proteção da biodiversidade do estado. Conquista rara numa assembléia composta em sua maioria por políticos da velha escola, da cartilha do favorzinho, do caixa dois, do tapinha nas costas e da embromação institucionalizada. Talvez eles nem tenham estado atentos para a importância do que estava sendo aprovado, tal era a falta de informação sobre o tema.

De conquista em conquista o PDSA foi sendo consolidado. No segundo mandato de Capiberibe, iniciado em 1999, a equipe de governo já estava afinada e a palavra não era mais um conceito onírico. Sustentabilidade era aquela fábrica incrível de beneficiamento da castanha construída no meio da floresta, era a escola bosque do Bailique preenchendo de auto-estima e conhecimento os habitantes do arquipélago, era o barco cibernético do projeto Navegar, globalizando as informações das beiras de rio, era o terminal rodoviário de Macapá, assegurando paradeiro decente aos milhares de cidadãos indo e voltando dos municípios. E era tanta coisa fazendo o programa de desenvolvimento sustentável sair do ambiente dos gabinetes para se tornar algo com cabeça, tronco e membros, que não dá mesmo para citar tudo. E isso,também, ninguém tira.

Pode ser que o TSE casse os mandatos de Capi e Janete. Afinal, a sombra e os tentáculos do monstro do atraso, aquele que roubava, roubava e roubava o nosso Amapá ainda não levaram a tacada certeira. Estão por aí assombrando, querendo sangrar nossas riquezas, vender nossas sementes valorosas, escravizar nosso povo simples, desrespeitar nossa história e transformar o Amapá numa grande vaca com tetas gordas a jorrar leite em suas vasilhas enferrujadas.

Mas, nem tudo está perdido, afinal de contas, quem é do bem não se amofina. Há homens que debatem idéias e constroem coisas maravilhosas com essas idéias. O Amapá sustentável foi uma grande idéia, plantada, cultivada e espalhada de tal sorte que nenhuma erva daninha será capaz de ameaçar seus frutos. E desde que nossas crianças aprenderam que baixada é área de ressaca não tem nada que consiga torcer a roda da história para trás. Quem tentar fazer isso vai se ver com as urnas.

Márcia Corrêa
23.04.04