Amor que parece ódio

A frase do título foi dita por Isabel, personagem de Carolina Dieckman na novela Senhora do Destino. Mas, serve perfeitamente para meus objetivos. Durante toda a semana que antecedeu o dia quatro de fevereiro, aniversário de Macapá, fomos bombardeados por seqüências de homenagens, inserções na TV, out-doors, entrevistas e todo tipo de janela publicitária possível com falas de parabéns à cidade.

Um amor assim descomunal, uma paixão desenfreada, derramada em frases feitas, sorrisos largos, gestos contundentes, olhos esbugalhados, músicas especialmente compostas, festas, foguetório e tantos outros exageros que nem sei especificar.

Então está bem. Salvem-se aqui os sentimentos verdadeiros. No geral, a falácia de parabéns a Macapá vem de fontes nada, nada confiáveis. Uma semana de homenagens e o resto do ano de abandono. Até o carnaval foi ferido de morte este ano. As escolas de samba, que movimentam milhares de reais na economia formal e, principalmente, na informal e convergem emoções e paixões populares verdadeiras estão com os barracões interditados pela incompetência política dos governantes.

Estão festejando o quê, caras pálidas? O lixo? A dengue? A doença de chagas? A lama nos bairros que esperam há anos pelo asfalto? As filas nos hospitais? A obra estagnada do Museu Histórico? O abandono do Museu Sacaca? O sucateamento da pesquisa científica e tecnológica? A pavimentação da BR-156, engatada em Tartarugalzinho? O endividamento sem precedentes do estado? A falta de vagas nas escolas públicas?

Sinceramente, quem deveria estar festejando não tem espaço na mídia. O povo que abraça a cidade todos os dias com trabalho, batendo pernas, desviando dos buracos nas ruas, gastando seu dinheirinho no comércio local, matriculando seus filhos na escola do bairro depois de madrugar dias para conseguir uma senha, construindo pontes para o futuro real de Macapá.

O desfile de hipocrisia na mídia chega a incomodar. Bem disse minha amiga Hanne, “falam de um jeito... parece até que a cidade é um ser pensante e compreende toda essa bajulação”. Na verdade o recado é para o eleitor e o objetivo é outubro de dois mil e seis. É assim que funciona a cabeça dos políticos, mais uma vez, salvo os de consciência e práticas limpas.

Ora bolas! Está nas mãos deles o poder e os recursos para cuidarem da cidade, com que cara então explodem em felicitações mil quando são da cidade os algozes? Vi gente na TV comovido em amor avassalador por Macapá, justo quem se sabe capaz de guardar - para não dizer palavra mais pesada - para si até as pedras da Fortaleza de São José.

Uma gente que pensa em cifrões públicos com tamanha intimidade, gasta o que abocanha bem longe daqui, constrói castelos à beira-mar, compra em caros shoppings do sudeste, corta os cabelos em salões freqüentados por artistas da Rede Globo, passa o carnaval no corredor caríssimo da folia baiana ou no metro quadrado dolarizado do sambódromo carioca.

Macapá é uma cidade eternamente a espera de ações políticas responsáveis. Sofre com a ocupação desordenada das áreas de ressaca, um problema bombástico que não tem a atenção devida do poder público, pode desagradar aos eleitores. Uma capital tomada pelo lixo, que mais uma vez não é atacado com eficácia, porque a prefeitura não tem peito para dizer à população com todas as letras que é preciso ter a cooperação de todos.

E os problemas se avolumando, enquanto é feita uma composição política para ocupação dos principais cargos do município, que mais parece um guarda-chuva furado. Amém aos partidos e quase nenhum critério técnico. Enquanto isso a cidade mergulha no inverno ameaçador, rezando para que as águas não cresçam a ponto de invadir as casas amontoadas nas baixadas.

Até protestar ficou arriscado nesses tempos doidos. O artista Finéas que o diga. Inventou um bloco carnavalesco e uma marchinha para criticar os poderosos e acabou recebendo ordem de prisão e ameaças contra sua vida. Onde estamos? Ou melhor, em que ano estamos? O Brasil do escárnio, que não poupa ninguém do humor ferino e criativo, esse não chegou por aqui. O medo dos artistas e a intolerância dos deuses de paletó e gravata são pinceladas de uma realidade absurda, porém, real.

Sabe de uma coisa? Cansei! Não vou mais assistir às inserções hipócritas na TV. Desviarei os olhos das placas de propaganda e vou rir muito das cantorias desafinadas dos políticos. Talvez assim passe mais rápido esse tempo chato, que parece aniversário de chefe. Faz-se a coleta, compra-se o presente, encomenda-se os salgadinhos, come-se muito e ainda enche-se os bolsos com os restos da festa.

Márcia Corrêa
05.02.05