Apoteose amazônica

Não quero que ninguém me descubra por trás dos óculos escuros. Guardar por mais tempo essa quietude, esse bem estar furtivo, essa mansa saudade. Só eu, o sal e o vento: me vesti de paciência para suportar o que não gosto, o trajeto feito com o corpo aprisionado num avião apertado e cheio de gente, o tempo olhado de dentro, por trás do vidro de uma janela pequena a limitar a beleza da liberdade.

Nada se compara ao sentimento bom de estar em Belém. É sempre assim, passada a zonzeira da aterrissagem, na calçada do aeroporto já respiro a emoção do regresso. Aquela leveza da volta para casa, e como está bonita essa casa.

Não fosse a pressa dos taxistas, que fazem a gente se sentir carga expressa a ser entregue com hora marcada, o longo caminho pela Júlio César seria mais agradável. Zim, zim... eles saem riscando o asfalto quente, tirando fino de caminhões e ônibus, freando aos solavancos com o bico do carro sobre a faixa de pedestres.

Não sei o que é pior, se o nervosismo do taxista que me leva, na agonia de voltar e pegar mais passageiros, aumentando assim o faturamento do dia, ou a minha calma zangada ao dizer-lhe que não viajei quarenta e cinco minutos para dar com a cara num poste do outro lado da baía de Guajará.

È chegar em casa, deixar as malas e sair para bater pernas em Belém. Gosto de tudo, até do que não é bom porque faz parte do todo. Belém é cidade e floresta numa grande apoteose amazônica. A gente vê essa simbiose em cada esquina, nos prédios espigados travando lutas silenciosas por espaço com as mangueiras frondosas; na mistura de negros e índios pincelada em matizes na pele morena do povo simples que colore as ruas, atravessando, seguindo, cruzando o caminho de mochileiros gringos louríssimos com aquele ar de quem caiu de pára-quedas em busca de aventura.

Logo na chegada uma notícia boa. Estão restaurando a Cidade Velha, a começar pelas avenidas João Alfredo e Santo Antônio, centrão do comércio popular. São ruelas de pedra do tempo do império. Ainda estão por lá os trilhos do bondinho, que vai voltar como “atração turística”. Turística uma ova, é atração pra todo mundo. As obras estão de vento em popa.

Esse cenário aprimora o resgate histórico e cultural iniciado com a recuperação do Forte do Castelo, da Casa das Onze Janelas e a criação do Museu de Arte Sacra, tudo no largo da Igreja de Santo Alexandre. Uma beleza.

Mais embaixo a feira do Açaí e o Ver-o-peso restaurados, menos o cheirinho de pitiú, é claro, que continua o mesmo. Também, é tanto barco com peixe, camarão, pirarucú, caranguejo e tudo o que o rio oferece em fartura para o ganha-pão dos pescadores, dos feirantes e a alegria da gente.

Seguindo pela Boulevard Castillo França surge a Estação das Docas, bem no final da Presidente Vargas. O que antes eram enormes e disformes paredões a cobrir a beleza do rio para esconder as embarcações que levam as riquezas do Pará, hoje é um lugar belo e arejado, com restaurantes, palco móvel, espaço para exposições e feiras, livrarias, artesanato. O lado bonito e caro da orla de Belém.

Bem adiante tem a Janela para o Rio, que é outra brecha cravada nos paredões das antigas Docas do Pará. Mais modesta, mas também atraente. Lá, um navio ancorado virou restaurante de comidas típicas, quiosques padronizados disputam a freguesia menos aquinhoada e o parquinho faz a alegria das crianças.

Na outra ponta da Cidade Velha, o antigo Presídio São José libertou as almas aprisionadas para ser transformado no São José Liberto, um complexo requintado com Pólo Joalheiro, Museu da Gemas, uma capela que de tão linda e delicada chega a comover e a memória do cárcere cravada nas celas.

Belém faz uma bela volta ao passado recheada de preocupações com o futuro. Tudo isso porque a população deu um chega pra lá nos velhos coronéis da política, Jáder Barbalho, Hélio Gueiros e outros, para dar vez a grupos mais arrojados, já que não se pode falar mais de direita e esquerda, ou progressista e retrógrado, esses rótulos que já não explicam nada.

Com Almir Gabriel no Governo e Edmilson Rodrigues na Prefeitura a cidade viu se estabelecer uma disputa impressionante. Obras e mais obras importantes foram mudando radicalmente a face da capital paraense. Problemas crônicos como os alagamentos e a falta de infra-estrutura dos bairros mais pobres ganharam soluções corajosas como a macro-drenagem e a abertura de ruas e avenidas. A 1º de Dezembro, por exemplo, vai chegar a Ananindeua, município vizinho, desafogando a Almirante Barroso, principal saída e entrada de Belém.

A cidade está cada vez mais bonita, com as bênçãos da Virgem de Nazaré, dando a ela o frescor dos banhos de rio, a alegria da rica cultura popular, o requinte das atividades lúdicas anunciadas aos quatro cantos, o verde exuberante e mais ainda, saída para uma faixa privilegiada de litoral oceânico que não deixa a desejar se comparada a qualquer praia do nordeste brasileiro.

E é pra lá que eu vou. Não digo fazer o quê porque faz parte do protocolo pessoal. Mas chego cedo à rodoviária, com o dia amanhecendo, para pegar o rumo de Salinas. Na dúvida se entro numa van ou num ônibus, opto pela primeira que come uma hora da viagem. Saindo às sete, chego às dez com tempo para dar umas voltas pela praia do Maçarico.

Enquanto o relógio não acorda para apressar os ponteiros, encosto o cotovelo no balcão da lanchonete para tomar café com pão e observar tudo em volta, que é o melhor ofício de uma jornalista. Sobre Salinas, conto depois, que não sou boba de gastar todas as fichas de uma vez. Fiquem com as saudades de Belém. Sei que todos nós temos uma ponta delas guardada no peito.

Márcia Corrêa
09.07.04