Aquarela do meu tempo

Janeiro
Passo o mês de janeiro, que é azul, em brancas nuvens. Perco-me em pensamentos e sustento a certeza insustentável de que é difícil, quase impossível coabitar em um mesmo mundo onde crianças sofrem incontáveis formas de violências e privações no exato momento em que deito minha esferográfica azul sobre o leito branco de uma página de caderno.
Pudera eu habitar outro mundo, o da filosofia, que rasga as vestes surradas da História em busca de palavras, frases, conteúdos capazes de explicar a crueza da essência humana. O mundo dos mundos, verde, habitado por fadas, poetas, gente de alma transparente. Personagens fundados na faculdade de apreciar, de sentir, tradução íntegra da palavra construída no senso crítico.

Fevereiro
Nasce fevereiro, marrom como a terra molhada do inverno, analogia das águas barrentas do Amazonas. O país mergulha na catarse anual do carnaval. Mar de esquecimento da vida real, quando tudo embarca na mais absoluta fantasia. Alegria histérica em convívio com doce e lírica melodia de marchinhas lentamente esquecidas no imaginário popular. Os dias dançam, fazem sexo livremente, expõem corpos quase sem alma, que a alma pesa quando a carne urge. Há medo, insegurança rodopiando na festa de cores, no ar miscigenado da temporada etílica de Momo. O Deus Baco reina embriagado, nu, cercado por fartas mulheres.

Março
Um mês verde-oliva, meio sem graça, em cujo calendário habita o tenebroso dia trinta e um. A última folhinha de uma história que o Brasil não pode esquecer. Tanques de guerra, fardas, patentes, armas, tortura. Em mil novecentos e sessenta e quatro as forças armadas entraram em cena para esmagar a frágil liberdade brasileira, com seus coturnos adornados pela aquiescência daquele mesmo senso comum que passara fevereiro entre confetes e serpentinas.
Estudantes, intelectuais, artistas, cidadãos ousados em sua intenção de pensar, refletir, reinventar o Brasil, mortos, desaparecidos como fantasmas de um país mergulhado na corrupção, no autoritarismo, na ausência de ética, na brutalidade.

Abril
Abril tem cor de água translúcida a escorrer pelas bicas, beirais dos telhados das casas. Água farta, brilhante, espalhando frescor pelas ruas. Chuva abençoada, alegre, em tons de cinza refletindo o espelho das poças formadas no asfalto. Traz esperança na correnteza de que esse mundo, esse país, essa cidade ainda podem ser pensados e construídos para a maioria de seus habitantes, respeitando-se todas as formas de vida, de amor, de criatividade, de pensamento e de sentimento.
Quem sabe as águas de abril desçam as ladeiras lavando as vergonhas da nação, rapinas da política que deixam rastros de sangue e desgraça por onde passam, expondo o Brasil, indiferentes à pobreza, à ignorância, à injustiça. Fora aos sarneys, barbalhos, pascoais, malufes, barcellos, orleys e todos os seus semelhantes. Fora a eles e a quem se fizer seus aliados, mesmo com a desculpa indesculpável de sustentar a tal governabilidade.

Maio
Floresce maio em tons de vinho tinto saboroso e quente. Aquece lentamente a carne enquanto se mistura ao sangue morno das horas novas. Maio das mães da Praça de Maio, das avós da saudade latina dos filhos mortos, dos corpos desaparecidos, dos laços perdidos. Mães que bebem as lágrimas salgada da extrema injustiça. A filosofia faz sofrer.
É justo que seja delas o mês inteirinho, o vinho, a festa. Das mães de todos nós, mulheres sãs, belas donas da cor de nossos sonhos, da luz de nossa existência. Senhoras absolutas de nossos pecados. Caixinhas de surpresa a arrancar de nós as mais verdadeiras emoções, nossa dor mais profunda, nosso riso mais franco, nosso peito mais aberto. Sem véus de alma.

Junho
Junho é anil, arrasta e espalha bandeirinhas coloridas, balões flamejantes, tranças, chitas, palha nos chapéus e fogos pipocando no céu da tradição popular. Junho é alegre de verdade. O povo pobre resiste bravamente e dança em volta das fogueiras sua leveza que esmaga docemente a amarga dose diária de miséria cultural.
Nordeste vida de brasileiros resistentes, sobreviventes, impertinentes em sua força de criar e recriar os ritmos, sons, folguedos, instrumentos da cultura popular. Rica colcha de retalhos do Brasil do lado de cá, com olhar de transformação permanente da vida e da arte. Quentão na goela do sertão. Veios de rios de braços abertos para a chuva teimosa em deitar na terra seca.

Julho
Amanhece julho e o sol alaranjado toma conta das terras do norte. Férias escolares e penso no país onde a educação está na banca da feira livre. Quem dá mais? Quem pode pagar? Sem educação não há transformação. Lugar comum, e lá vai mais um. Só a educação pode superar o senso comum.
Refletir em laranja para irradiar novas luzes sobre o compromisso público dos que podem e devem fazer do Brasil o país da educação. Um lugar de cidadãos críticos, libertos, capazes de sonhar novas utopias e rastrear o caminho da arte de voltar à consciência, ao espírito da filosofia, ao exame de seu próprio conteúdo.

Agosto
Gostem ou não esse mês é verde água. Verdinho mesmo, como a imensidão do mar visto do alto, de sobre as asas de um avião. Verde como deveria ser a consciência da humanidade, que desembarcou no século vinte e um destruindo, queimando, vendendo, desmatando seu colo quente de mãe natureza.
Natureza amarga a do ser humano, destruidor, inconseqüente e liderado por George Bush, bruto americano do Texas, com crinas no lugar dos cabelos e patas a ocupar o lugar dos pés. Decide sozinho o futuro do planeta. Permite a emissão de gases tóxicos para a atmosfera e espalha o veneno do ódio pelo Oriente Médio.

Setembro
Como o suavizar de um dia ensolarado ao cair da tarde, setembro se apresenta amarelo ouro. Vem quente em seu prenúncio de final de ano. É quando os arroubos de patriotismo duram metade das vinte e quatro horas do dia sete, dia da independência do Brasil em relação a Portugal. Tanta pompa e a gente continua nas mãos dos gringos.
As flores de setembro são cachos de pensamentos sobre o futuro das cidades. Tirar a melhor roupa do armário, conversar com os amigos, pensar mais um pouco e decidir. Logo mais chega o dia de ficar de frente com a maquininha cheia de botões, a tal urna eletrônica, cravar os dedinhos cheios de esperança num país que seja um pouquinho melhor a cada eleição.

Outubro
Violeta como a alma das mulheres, outubro foi reservado às grandes decisões. A cada dois anos o país mergulha em águas atormentadas, revoltas. Hora de parir seu próximo futuro próximo. Mãos induzidas, conduzidas, umas compradas, outras decididas, comprometidas, livres fazem a escolha. Lá vai o Brasil subindo a ladeira.
Outubro entra de vez no clima de final de ano. Sensação incômoda de não ter feito tudo o que se prometeu fazer, e de não haver mais tempo de retomar os projetos largados quando janeiro ainda se avizinhava de fevereiro. Sentimento familiar de que todo ano é a mesma coisa. Projetos, promessas, planos e tudo igual no país do eterno carnaval.

Novembro
De vermelho barrento, novembro entra e vai logo saindo. Inaugura a condição de ser e de não ser ao mesmo tempo. Não é, mas parece o fim do ano. Não há mais tempo, mas deixa a impressão de que vai ser possível salvar ainda algo do que não foi feito. Angústia de estarmos mais velhos, mais pobres, endividados, cansados da batalha diária pela sobrevivência. Quem somos nós, afinal, em meados de novembro?
Ressaca moral se o voto foi mal dado, receio de que não sobre grana para a ceia, os presentes das crianças, as bolas coloridas da árvore de Natal, a guirlanda importada de Taiwan, a dosagem material de felicidade necessária. Paciência para as intermináveis festas de confraternização, de onde o espírito da solidariedade quer distância, repousa longe indignado com a comilança rude e o excessivo mau gosto das trocas fúteis de amigos/inimigos bem visíveis. Arg! Novembro é um carro velho sem freios.

Dezembro
Novembro se foi, levando em seus vermelhos veludos os planos de ontem, as promessas de amanhã. Amanhece dezembro com luzes coloridas, sentimentos confusos de amor e consumo, solidariedade e egoísmo, pobreza e fortuna. Mês inquieto, repleto e ao mesmo tempo espelho da mais absoluta carência, da extrema ausência, do total abandono.
Viveu entre pobres e prostitutas o Jesus dos meninos sós que perambulam pelas ruas de dezembro. Pés sujinhos, roupas rasgadas, cabelos ressecados e mãos sempre dispostas a pedir, infinitamente pedir... Com suas mesas fartas, dezembro é insuportavelmente pálido de fome.

Márcia Corrêa
22.07.04