Tá cansado Sebastiãozinho?

Juro que não ia meter minha colher nesse angu eleitoral. Mas, não resisti. Culpa dos marketeiros do Sebastião Rocha Bala, candidato do PDT e de mais uma penca de partidos. Primeiro programa de TV da série EmBala a rede do Sebastiãozinho. Lá no Jaburu dos Alegres um menino carequinha, branquinho brincava solto pelo campo, ó que linda natureza, ó que lindo é o cantar dos pássaros. E lá vem o Bastião na proa do barco que o destino apelidara de Vencedora. Sacou o link? Vencedora, vencedor.

Na cidade, cansado de caminhar com suas perninhas curtas, vem a pergunta do pai, tá cansado Sebastiãozinho? Tô papai. Então sobe aqui no meu ombro. E foi assim que o menino Sebastião aprendeu a olhar Macapá de cima, ou do alto, sei lá. Mas é essa a conclusão profundamente sentimental dos marketeiros na voz do narrador. O que era para ser drama virou galhofa nas feiras, botecos, escolas.

Estão olhando a cidade de cima até hoje. Querem fazer dela uma metrópole. Sabe aquelas cidades enormes, confusas, cheias de esgotos, violência, barulho infernal, gente indiferente, individualismo, solidão? Gothan City. Pretendem sepultar nossa prosaica Macapá, ou o que ainda resta dela. Os marketeiros de fora falam através dos moradores articulados para a campanha. Esculhambam Macapá dizendo que não tem cara de capital. Comparam insistentemente com outras cidades do país num discurso etnocêntrico de embrulhar o estômago.

Cada cidade é o que é porque tem sua própria história. Deve crescer e melhorar respeitando essa história, a cultura e os costumes de seu povo. Evoluir a partir de suas descobertas, suas vocações, suas tradições e, principalmente seu ritmo. Acelerar para que a cidade se torne igual à outra qualquer é insanidade, despropósito. Mais uma vez, visão alienígena.

Tempo em televisão é faca de dois “legumes”. Trouxeram marketeiros de fora, apresentadores de fora para fazer um programão chato, monótono, parecendo aqueles clipes do Amazonsat, árvore, floresta, piu de pássaro, rio, um boto aqui outro ali e mais árvore, floresta, piu de pássaro, rio... Aí entra o casal de âncoras. Ela puxando o “r” e o “s”. Ele com aquele enorme par de sobrancelhas e cara de estou chegando agora, muito prazer. Coisa de quem vê a Amazônia pela primeira vez. Vieram de qualquer planeta, menos do Amapari. A velha idéia de que gente bonita e que fala bem, só de fora.

Essa idéia de candidato mostrar onde nasceu começou, pra variar, com o senador Capiberibe quando candidato a governador. Mas, o contexto era outro. Um caboquinho do Amapá, nascido na beira do rio, se arvorando a enfrentar os colonizadores sulistas na disputa pelo Governo do Estado em 1994. Era a briga do amazônida contra o paraquedismo em moda na época. E agora? É Sebastiãozinho do Jaburú, Janete da Serra do Navio e João de Macapá. Tudo de linhagem ribeirinha.

Marketeiro de fora não saca essas coisas. Sabe como é, né? Cai de pára-quedas na boca da campanha pra dar solução a uma realidade que nunca viu. Pode até funcionar, se estiver sob o comando de alguém do lugar e que se sinta do lugar. O que não parece ser o caso. Tudo indica que trouxeram o pacote completo, com estratégia de marketing, programa de governo, formatos de programas de TV, tudo que provavelmente foi usado em alguma cidade da metade do país para baixo.

Tem também as inserções espalhadas na grade da programação. Com a maior coligação e, consequentemente o maior tempo, a equipe de Bala resolveu fazer o seguinte, filmetes com o mesmo formato, a mesma idéia, mudando só o texto e os personagens. Resultado, três ou quatro deles num mesmo intervalo comercial e o público saturado de tanto depoimento plastificado.

Confusão na cabeça da população. Muita gente, mas muita gente mesmo anda telefonando para a TV Amapá, retransmissora da Rede Globo e para outros veículos de comunicação para reclamar do que considera abuso do poder econômico. O excesso de exposição da campanha de Bala saiu pela culatra.

Depois que a casa foi roubada o dono compra a tranca, não é assim? Agora os marketeiros estão usando o horário das inserções para explicar em forma de nota que o tempo é gratuito, faz parte do sorteio do Tribunal Regional Eleitoral, e tra-la-ia. Um festival de confusão.

Tem também o conteúdo dos tais filmetes. Definitivamente, a campanha do candidato do governador Waldez Góes aposta no que considera ingenuidade do povo, pra não dizer outra coisa. Vem um cidadão e diz que o Marco Zero do Equador é aquele lugar onde a gente coloca um pé no norte e outro no sul. Alooooô! Tem alguém aí? Parece campanha do Detur, para turistas. Todo mundo em Macapá sabe que a linha divide os hemisférios e blá, blá, blá. Só falta os marketeiros irem tirar a foto tradicional com as pernas abertas sobre a linha imaginária.

Então, o cidadão diz que quer levar essa magia do Marco Zero para as ruas de Macapá. Só se andar com um pé de cada lado do meio-fio. Imaginou a cena? Tem cada uma. E a mocinha que não vai mudar de escolha para o vestibular e atender aos apelos do pai, vai mudar é Macapá. O que a cueca tem a ver com as calças? Tudo muito viajandão. Se os depoimentos fossem espontâneos não terminariam sempre com o mesmo bordão. Aí talvez funcionasse.

No meio disso tudo o Bala. Ah! O Bala, que deveria ser o protagonista, está de coadjuvante se escondendo dele mesmo. Não diz que foi secretário de saúde do governo Waldez, muito menos que é candidato do governador. Queimação varrida para debaixo do tapete, omite seu nome, Sebastião Rocha. É que esse era o nome usado pelo secretário de saúde e também pelo parlamentar.

Se puxar lá de trás vai ter que explicar porque aprovou projeto na Assembléia Legislativa do Estado, quando era deputado, decepando grande área do município de Macapá para anexar ao município de Santana, por onde se elegeu. A área oeste da capital, incluindo o Coração, Porto do Céu, Matapí, Distrito Industrial e outros seriam de Santana se o projeto não tivesse sido derrubado.

Aliás, deve ser mania de médico essa de fazer cirurgias. Quando senador, Bala propôs a criação do estado do Oiapoque. Queria eliminar do Amapá a faixa de fronteira e todas as suas possibilidades econômicas, culturais. Quanto ao Oiapoque, com o que arrecada, certamente anos de maiores dificuldades, problemas sociais e pobreza.

Para esconder tudo isso a estratégia dos marketeiros “geniais” de Bala é criar um novo personagem. Alguém desvinculado de seu próprio passado recente. O único passado permitido é o de Jaburu dos Alegres. Um Bala perdido no tempo, que diz até que sempre morou em Macapá quando todo mundo sabe que sua história tem fortes vínculos com a vizinha Santana. Ô estrategiazinha complicada.

Ainda tem um mês inteirinho para essa turma acertar o passo. Zerar tudo e começar uma nova campanha? Falar a verdade sobre Bala ser o mesmo Sebastião Rocha? Assumir a presença da chamuscada figura do governador Waldez na telinha? Hum... tá difícil, mas se os marketeiros são bons mesmo encontrarão um jeito. Do contrário, tá cansado Sebastiãozinho? Eu não estou.

Márcia Corrêa
Em 30.08.04