O carlismo transcende a política

A morte de ACM enseja a discussão. O que irá acontecer com o carlismo. Para muitos, o grupo morre com ACM, para outros o grupo independe da figura do cacique.

Quem convive com o carlismo, há quase 40 anos, enxerga que o grupo transcende a política.

O carlismo é amplo. É um movimento incrustado em vários segmentos da sociedade baiana. Pode parecer piegas, mas é latente na vida empresarial baiana. Isso se deve a atuação de ACM, que não se preocupou em formar apenas um grupamento político. ACM foi além disso e estendeu seus tentáculos por quase toda a sociedade baiana. O carlismo nunca fez distinção de credo, raça, cor ou classe social. Está presente em todos os cantos da Bahia, principalmente naqueles que calam fundo a alma e ao sincretismo baiano.

Um dos grupos carlistas mais fortes está encravado na cultura baiana, incluindo, aí, todos os segmentos culturais. Vale lembrar, que em 1990, uma das principais peças publicitárias da campanha de ACM ao governo da Bahia foi a carta de Jorge Amado, classificando ACM como o melhor prefeito de Salvador de todos os tempos.

A teia do carlismo é muito forte. Foi urdida com paciência, a partir da formação de uma rede de veículos de comunicação que irradia seus tentáculos por todo o estado, através de satélites, que interferem no dia a dia da Bahia.

Foi essa estrutura, que ajudou ACM a recuperar a hegemonia político-administrativa em 1990, depois de uma derrota acachapante de seu candidato em 1986, que começou em 1982 com a escolha de João Durval para concorrer a sua sucessão, pela qual se penitenciou em depoimento no livro “Política é paixão”, publicado em 1995:

"João Durval foi resultado de uma tragédia. Agora, digo sempre em relação a Paulo Souto: Este é fruto de uma reflexão, o outro foi fruto de uma emoção. João Durval foi escolhido após o acidente que matou Clériston Andrade faltando 40 dias para o final da campanha eleitoral, quando muitas pessoas não podiam disputar a eleição. Talvez, tenha pesado um pouco aí a minha vaidade. Devo até pedir desculpas aos baianos neste livro, e peço, pela escolha de uma pessoa que era pouco conhecida, só para mostrar que tinha força para eleger qualquer um candidato".

A carga pesada desferida contra Waldir Pires foi tão devastadora, que ele deixou o governo da Bahia no segundo ano do mandato, com a desculpa de disputar a convenção presidencial do PMDB. Derrotado, preferiu sair vice-presidente na chapa de Ulisses, do que continuar a governar a Bahia, sob o fogo cerrado da comunicação do carlismo.

Essa teia que se chama Rede Bahia, está sob o comando de ACM Junior e ACM Neto e faz a diferença. Vale lembrar, que sem ela, nenhum carlista sobrevive isoladamente, por isso muitos vão pensar antes de trocar de barco. O ex-deputado, Benito Gama, é um exemplo disso. Deixou o grupo e nunca mas se elegeu. Existem muitos outros exemplos.

Essa teia é fundamental, por exemplo, para a sobrevivência de um segmento importante: o axé. Pois toda a estrutura de eventos da Bahia é subalterna a ela. Em alguns casos, ela banca o ressurgimento de alguns nomes do axé que caíram no ostracismo. Exemplos existem aos montes.

Além disso, essa teia atua em outros segmentos importantes da vida empresarial baiana, que durante os últimos 16 anos prosperaram graças ao carlismo.

Os atuais governantes da capital e do Estado precisam dessa teia para prestar contas a sociedade, por isso a tratam com todo o cuidado possível para não despertar a ira, pois conhecem seu poder de destruição. Afinal, a maioria dos que estão no poder, a enfrentaram no fim dos anos 80.

Vale lembrar, que a vitória de João Henrique em Salvador, em 2004, se deu, em parte, pelo agastamento das relações entre o criador (ACM) e a criatura (Imbassahy) e a vitória de Jaques Wagner por que a criatura (Paulo Souto) durante os quatro anos de governo desprezou a teia (Rede Bahia e seus satélites), imaginando que poderia navegar independente dela e acabou surpreendido.

Portanto, o carlismo está vivo e vai querer reconquistar os torrões perdidos, principalmente porque alguns ex-carlistas podem voltar ao grupo, pois suas desavenças foram com ACM e não com os carlistas. A prova disso, é que Luiz Eduardo Magalhães estava costurando, antes de morrer, uma grande aliança com ex-carlistas alojados no PSDB e PMDB.

Por isso tudo, ao meu ver, o carlismo transcende a política e está incrustado na sociedade baiana.