Dever Cívico

“É dever cívico”. Essa frase ecoa no oco na minha memória. Ouvi pela primeira vez, acho, de uma professora do primário. Na escola Barão do Rio Branco todos os dias entoávamos o hino nacional. Enfileirados sob o sol escaldante, cantávamos aos tropeços a letra rebuscada da canção pátria. Mas, tinha lá seu encanto essa atitude.

Só não gosto da palavra “dever”. Cantava com uma certa emoção infantil. Sem entender nada do papel cívico do hino. Apenas sentia que aquela música erguia a bandeira e o vento parecia entender o ritmo exuberante da melodia. Eu sempre acompanhava o movimento das mãos do aluno ou aluna escolhidos para puxar a cordinha. Era uma honra estar ali na frente. Eu era baixinha e usava óculos. Na memória de criança eram essas as razões de nunca ter sido chamada para tão elevada tarefa.

Semana da pátria estávamos nós de novo a cantar o hino. Desta vez marchando a suar em bicas, mas com o coraçãozinho palpitando de emoção. Todos iriam nos ver com os sapatos engraxados e a roupa reluzindo de tanto anil. Algumas vezes consegui chegar lá, no topo da pujança cívica. Puxei pelotão no final do primário, afinal, os alunos de quarta-série eram a elite das escolas primárias. Repeti a emoção no segundo grau, à frente das bandeiras do estados, defendendo as cores do Colégio Amapaense. Aquele que um dia foi o “colégio padrão”.

Eram tempos de civismo imposto, mas de certa forma aceito com um misto de emoção e medo. Os pais temiam a Ditadura Militar. Dela partiam as nomeações dos governantes do Território do Amapá. Dos governantes partiam as ordens sobre hinos, bandeiras e desfiles cívicos. Eu e milhares de estudantes não entendíamos nada de política. Apenas sabíamos da emoção de estar ali. Representando algo de tamanha subjetividade, que só alcançávamos pelos sentidos, raramente pela razão.

Ouve um corte de tempo. Tenho duas filhas estudantes. Nenhuma delas tem obrigação de cantar o hino nacional na entrada da escola. Aprenderam pela televisão. Alguns professores encomendam pesquisas. Datas são lembradas e os pedagogos parecem fazer um esforço enorme para convencer crianças e adolescentes sobre a importância do hino nacional.

A geração dos netos da Ditadura Militar nasceu debaixo da maior ressaca cívica. A partir dos anos oitenta, tudo o que remetia a “dever” e “obrigação” foi banido do coração dos brasileiros. O regime dos generais havia surrupiado nosso imaginário verde-amarelo. Os militares tinham conseguido associar nossos símbolos pátrios às notícias e imagens dos porões da tortura.

O século XX, marcado para nós pelos vinte anos de poder militar, acabou. Lula, o operário que enfrentou os generais no final dos anos setenta é o novo presidente do Brasil. Ele agora torna obrigatório o hino nas escolas públicas, “pelo menos uma vez por semana”. Ou seja, meio ditadura, meio democracia. Meio dever, meio convencimento.

São os novos tempos. No mundo pós-moderno, onde “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como disse Marshal Berman, os fragmentos da história se encontram aqui e acolá no globo giratório da realidade. Lula recupera um caquinho de autoritarismo militar ao tornar obrigatória a execução do hino, e junta com um caquinho de liberdade de escolha, afinal, é só uma vez por semana, para assegurar que o hino nacional volte a fazer parte do dia-a-dia dos brasileirinhos. E eu ainda tenho uma fotografia segurando uma linda bandeirinha do Brasil, durante a parada de sete de setembro.

Márcia Corrêa
12.09.03