Doce rebeldia

Conheci o Job Miranda no meio de uma agitada semana de preparativos para mais um festival de música da Associação dos Universitários do Amapá - AUAP, e lá se vão dezoito anos. Eu ainda não era universitária, mas transitava entre amigos comuns naquela atmosfera de produção cultural, militância política, certezas históricas e alguma boa dose de porralouquice, que sem isso não tinha graça nenhuma.

Job era uma das principais lideranças do movimento estudantil universitário amapaense, que naquela época ocorria em Belém, com foco principal na Universidade Federal do Pará. Fátima Lúcia Guedes, amiga de infância, hoje socióloga atuando no Sebrae, foi quem me apresentou essa turma. Ginásio Avertino Ramos lotado, no palco o que havia de melhor na música amapaesne, Zé Miguel, Amadeu Cavalcante, Val Milhomem, Osmar Junior, Grupo Pilão... Tanta gente boa. Esses eram alguns dos concorrentes.

No ano seguinte, em 1987, filiei-me ao PT, entrei para a UFPA para cursar História e fui logo embarcando na AUAP como diretora cultural da chapa Arruar, que tinha o Job como presidente. Ganhamos a eleição. No mesmo ano viajamos para Campinas junto com a delegação de estudantes do Pará. Era o Congresso da UNE mais importante para o PT daquele período. Depois de um longo tempo dirigida pelo PCdoB, finalmente a maior entidade estudantil do país poderia ter maioria petista, a conjuntura era favorável.

Não deu outra, eu, Job, Ronaldo Serra e tantos outros assistimos a eleição do paraense Valmir Bispo para a presidência da União Nacional dos Estudantes, em um dos ginásios da Unicamp.
Nosso grupo no movimento estudantil, de Valmir também, era a Caminhando, braço do PRC - Partido Revolucionário Comunista, alojado clandestinamente no PT. Eram as reminiscências da luta contra a Ditadura Militar. O país estava em transição para a democracia e as organizações de esquerda ainda assimilavam de forma desconfiada a possibilidade de agir abertamente no seio da sociedade.

Então, lembro de um final de tarde, na CEUP - Casa do Estudante do Pará, onde Job dividia o quarto com Dinaldo Melo, hoje psicólogo e instrutor de oficinas sobre cinema. Naquele dia ele me chamou todo misterioso e disse que ia mostrar algo secreto. Um livro, cuja capa oculta por uma folha de papel em branco deixava entrever a cor vermelha. Ele abriu aleatoriamente e pediu que eu lesse. Era a cartilha revolucionária do PRC. Li e não entendi nada, mas fiquei me achando muito importante por merecer sua confiança.

Daquele dia em diante, sempre com o Job e outros companheiros (era assim que a gente de chamava) por perto mergulhei nas leituras obrigatórias para um bom revolucionário.

Cheguei e participar de algumas reuniões que julgávamos clandestinas, mas que na verdade ninguém sabia porque já não interessava ao poder político saber. Eram outros tempos, de abertura, e uma certa confusão teórica. Tanto que no ano seguinte o PRC foi extinto num congresso em São Paulo. Nós, da base da Caminhando, ficávamos sabendo das coisas de forma fragmentada e aquilo foi determinando o rumo que cada um tomou depois na militância política.

Job esteve à frente de lutas importantes. Brigávamos contra o governo do Amapá pelo pagamento das bolsas de estudo aos estudantes em Belém, fazíamos passeatas pela meia passagem em confronto com a polícia de choque de Jader Barbalho. Agitávamos Macapá com passeatas e festivais de música nas férias.

De uma coisa eu lembro bem, Job nunca teve medo de nada, principalmente de romper com situações confortáveis na política. É um rebelde doce e leal. Mesmo quando radicaliza em suas posições, no momento seguinte é capaz de tirar do bolso os últimos dez reais para dar ao adversário se uma situação de necessidade surgir.

Job não é manso. É feroz na defesa de suas idéias. Assume as conseqüências políticas de seus atos de peito aberto e não participa de conchavo antiético. Às vezes parece que sua rebeldia não tem causa, mas a causa primeira está exatamente na insubmissão ao que considera injusto, desleal, imoral. E ele vai pra cima, organiza a frente de batalha, prepara as armas e confronta, mesmo que o inimigo esteja dentro do próprio partido que ajudou a construir nos melhores anos de sua vida.

Petista com história, trajetória, coragem, conhecimento e alma limpa. Quer mais? Então lá vai. Ele voltou aos velhos e bons tempos de militância. Chutou o pau da barraca da pasmaceira que se instalou no PT nos últimos quatro anos. Virou a mesa contra o PT chapa branca, envolvido com escândalos de corrupção denunciados pelo Ministério Público Federal, atrelado aos vícios da máquina pública e sectarizado num projeto de poder que aniquilou a aliança de esquerda construída a duras penas a partir de 1990.

Mas, Job não está só, lidera um grupo de mais de cem militantes, incluindo parte da base de apoio do deputado Randolfe Rodrigues. Esse grupo decidiu romper com a candidatura do neo-petista João Henrique para apoiar a deputada federal Janete Capibertibe, do PSB, na perspectiva de retomada da aliança de esquerda que governou o Amapá durante oito anos e implantou o desenvolvimento sustentável como eixo de programa de governo.

No discurso de adesão à candidatura de Janete nas eleições municipais, Job disse que João Henrique, atual prefeito de Macapá, não implantou na prefeitura as principais marcas do modo petista de governar. Não descentralizou a administração, não democratizou o orçamento, não criou o Banco do Povo, enfim, veio, viu, mas não governou como petista.

Esse é o Job velho de guerra. Rompe com a candidatura do PT no momento em que o partido está mais poderoso, governa o país e acha que governa a prefeitura de Macapá. Expulsa lideranças históricas, joga para debaixo do tapete denúncias graves contra filiados e enquadra os descontentes.

Esse é o meu companheiro dos bons combates. E devo dizer-lhes democraticamente, caros leitores dessa coluna, que estou com ele em mais essa briga.

Márcia Corrêa
Em 18.09.04