Espancamento de Sirlei: a ponta do iceberg do preconceito e da exclusão social

Na madrugada de sábado, 23/06, a empregada doméstica Sirley Dias Carvalho Pinto, 32 anos, foi roubada e espancada por cinco jovens da classe média-alta do Rio de Janeiro, em uma parada de ônibus da capital carioca. O país acordou estarrecido com mais essa manifestação de barbárie que afeta principalmente os grande centros urbanos. No decorrer desse dia e dos seguintes, os bandidos - todos universitários - foram presos graças à coragem de um taxista que viu tudo e teve o cuidado de anotar a placa do carro dos agressores. Ao ser preso, um deles confessou o crime e declarou que o grupo “pensou tratar-se de uma prostituta”. A imprensa, de modo geral, deu boa cobertura ao caso, catalisando a justa indignação da sociedade. Alguns articulistas registraram o forte preconceito que ainda persiste contra a mais antigas das profissões do Planeta, em pleno século 21.

Devido à grande repercussão do caso, há grande expectativa de que os criminosos sejam punidos. A própria vítima, ao declarar estar disposta a perdoá-los, espera que os mesmos sejam julgados e condenados, isentando os pais que, segundo ela, estão “sangrando” com o caso. O fato caminha na direção de uma exceção, de um absurdo, ou de “um deslize” no dizer de um dos pais dos bandidos, e que, portanto, não se revestiria de uma prática social. Nessa direção também embarcou a maior parte da mídia, considerando o fato como uma manifestação de preconceito contra prostitutas. Mas será só isso?

Na prisão de um dos acusados, o pai, Ludovico Ramalho Bruno, 46 anos, microempresário, declarou ao jornal Folha de S. Paulo: “Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles (sic) com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses? Existem crimes piores”. Não bastasse isso, funcionários dos condomínios Califórnia Park e Long Beach, na Barra da Tijuca, em entrevista aos jornais disseram que “felizmente eles foram presos”, pois, segundo seus relatos, os ditos jovens costumavam fazer “pegas” e se divertir no retorno das festas atirando latas de cerveja e xingando os trabalhadores que chegavam ao emprego antes do dia clarear.

Da declaração do zeloso pai, não é preciso ser psicólogo social ou sociólogo para concluir que há cidadãos de primeira e de segunda classe no país. Segundo essa concepção, prisão é lugar para bandidos “sem estudo”, o que no Brasil, considerando as estatísticas da população carcerária, equivale a dizer que prisão é lugar de pobre, preto, pardo e de gente sem escolaridade. Esses criminosos podem aguardar presos nas piores condições, mesmo que que o crime tenha sido roubar um lata de manteiga ou um par de tênis. Em muitos casos o tempo de detenção a espera de julgamento ultrapassa em muito a pena para o delito. Já os jovens da classe média não podem ser submetidos a semelhante vexame, pois, além de sua origem, têm “caráter” e “estudo”! Com um pai desses, não nos surpreende a atitude dos filhos.

Os próprio nomes dos condomínios de luxo indicam muito bem onde essa classe média alta (nome melífluo com o qual se pretende neutralizar a divisão da sociedade em classes) gostaria de morar. Por infelicidade do destino, foram obrigados a nascer no Brasil, quando gostariam, de fato, de ter nascido na “terra das oportunidades”, os Estados Unidos da América ou melhor, em sua linguagem, nos States!

De fato, esse é mais um dos exemplos cotidianos do imenso apartheid social existente em nosso país. Não estamos frente a um caso isolado de delinqüência juvenil, nem de mero preconceito contra prostitutas. Trata-se de manifestação extremada de preconceito social, de classe mesmo, entre os que se julgam afortunados e acima das leis e aqueles que apenas existem para os servir. O convívio secular com a exclusão social gerou esse tipo de manifestação sem qualquer pudor do preconceito social. E é de se temer que gerações de jovens ainda estejam sendo formados por pais como Ludovico.

Sirley, Galdino, mendigos de São Paulo, garotos da Candelária são apenas os exemplos mais evidentes de um ódio subterrâneo do patriciado de um Brasil que gostaria de mandar um outro Brasil para baixo tapete ou para um lugar mais seguro, a sete palmos abaixo da superfície!

O amálgama de mais de 30 anos de escravidão, de genocídio dos povos indígenas, do poder oligárquico e imperial excludente, sucedidos por regimes populistas e ditatoriais alternando-se no poder, com curtos espasmos de democracia (na maior parte dos casos caracterizada por uma cidadania irresponsável que se limita a votar), construíram as bases de um apartheid social que se traduz hoje na guerrilha urbana do narcotráfico, predominantemente financiado com recursos das classes médias e senhoriais, cuja busca de prazeres ilimitados proporcionados por um caleidoscópio de consumo inclui as drogas e, com a ajuda destas, o fascínio pelo crime e pelo prazer mórbido dos safáris sociais que vitimam Sirleis, Galdinos e outros tantos com cada vez mais assustadora freqüência.

Uma sociedade com tais raízes, baseada nos valores do individualismo, do consumismo, da liberdade vinculada ao poder econômico, político e social, sem qualquer contrapartida de responsabilidade e com uma classe média que, tendo entrado em crise na educação dos filhos, esqueceu-se de que viver em sociedade implica em restrições e, portanto em se saber dizer “não”.

Acumulando isso tudo à impunidade que abriga os atos dos antigos e novos membros das elites econômicas e políticas, constitui o perigoso pântano cultural em que se formam e se reproduzem seres humanos embrutecidos, de excludentes e excluídos que cada vez mais se odeiam. Assim, encontramo-nos todos impotentes frente à violência que é sempre dos “outros”, e não responsabilidade de cada de um de nós que se acostuma com a miséria e com o sofrimento da pobreza, como se fossem coisas de governo ou do destino.

Enquanto isso, o ciclo da exclusão, da violência e do preconceito se reproduz sobre a máscara de uma sociedade plural e tolerante. Vale registrar que o próprio Ludovico, pai de um dos jovens praticantes do safári social, ao ir a um delegacia, foi vítima de uma bala dessas que se perdem e costumam “achar” seres humanos.

Reverter essa situação exige um pouco mais do que a indignação espasmódica frente a cada novo escândalo, que nos faz esquecer o anterior. Exige que, além de cobrarmos dos poderes constituídos as providências necessárias, que sejamos capazes de olhar para dentro de nós mesmos e ainda tenhamos a capacidade de nos indignar, comodamente, não apenas contra o último fato, porém contra a máquina que nos embrutece e avilta à todos. Ninguém pode conviver ignorando a exclusão e a miséria impunemente. E se quisermos assim, temos que saber que nenhuma de nossas catedrais de consumo (o shoppings e Daslus), nossas fortalezas de condomínios de luxo, eletrificados e vigiados por câmeras 24 horas, ou nosso carros blindados serão capazes de nos salvar. Porque não poderemos nos salvar de nós mesmos, de nossa ignorância, preconceito e desumanidade.

Elias de Paula Araújo