Final de tarde

Final de tarde na casa de meu pai tem sabor de boa conversa. É quando o sol se aquieta e desiste de afoguear nossa paciência amortecida pelas quinquilharias do cotidiano. Cafezinho novo na garrafa térmica, passado no coador de pano, torradas com manteiga, tapioquinhas ao leite de coco compradas no portão e a gente em volta da grande mesa retangular, herança da perspicácia doméstica de minha mãe.

A luz tranqüila que invade a varanda cobre de serenidade os cabelos prateados do velho Corrêa Neto, enquanto ele conta histórias de suas andanças pela Amazônia. Este ano, completa cinqüenta anos de jornalismo, data que descobrimos assim por acaso durante o relato de uma cobertura jornalística feita nas brenhas da mata, onde uma ponte era construída “do nada pra lugar nenhum”.

Eu disse velho? Opa! Na verdade sou mais velha que meu pai. Sua capacidade de indignar-se, rebelar-se, explodir com aquilo que considera injusto faz-me repetir freqüentemente que seu espírito jamais deixou de ser adolescente. Tem assim entre treze e dezesseis anos e navega na radicalidade de um jovem cara pintada.

Numa dessas tardes, depois de ouvir algumas de suas histórias, perguntei-lhe se conhecia o Acre. Contou que sim, quando morava em Manaus, lá pelos tumultuados anos sessenta, visitou o estado fronteiriço por duas vezes, sempre em busca de notícias para sua máquina de escrever. Nunca teve vontade de ficar por lá? Não, nunca pensei nisso, respondeu.

Depois de um gole de café, pensativo, perguntou, por quê? Sei lá, pai, acho que teria sido interessante a gente ter migrado para Amazônia Ocidental, viver outra história... Eu teria acompanhado de perto a luta de Chico Mendes e dos seringueiros, o nascimento das discussões sobre desenvolvimento sustentável e essas coisas. É! Quem sabe? Respondeu meio sem certeza.

Tem nada não, pai. Acho que é só ressaca eleitoral, continuei. As conversas têm esse poder de ir desabrochando, revelando os verdadeiros motivos de nossas inquietações. Uma frase aqui, uma reflexão ali e de repente a gente entende o porque das cismas dos últimos dias, das quietudes, das ausências do cotidiano.

Então, ele puxa o fio do devaneio e recompõe o real à minha volta. Mudando o rumo da prosa, anuncia que o Sebastião Rocha Bala, candidato derrotado do PDT nas eleições de domingo, daria uma entrevista contundente no dia seguinte, atribuindo ao Sarney, senador maranhense que há dois mandatos se mantém no Congresso com votos do Amapá, a culpa por sua derrota.

De fato, Bala deitou reclamações através da Rádio Cidade, logo cedo, dando conta de que Sarney e o PMDB, que faziam parte do leque de aliados do PDT, haviam mudado de lado na última hora. Uma versão mais ou menos assim, Sarney chegou dois dias antes da votação e fez migrarem de Bala os vinte mil votos que asseguraram a vitória ao candidato do PT, João Henrique Pimentel.

Então ta bom. O Sarney é mágico. Num piscar de olhos altera todo o quadro eleitoral, sem muito esforço, apenas com seu bigode suspeito e sua astúcia de raposa. Reforça-se o mito, a idéia estapafúrdia de que estamos todos à mercê, indefesos, impotentes diante de sua majestade o rei dos lençóis maranhenses.

Que o cara é matreiro, isso todo mundo está cansado de saber. Mas, essa versão de que suas artimanhas foram capazes de modificar a vontade popular tem duas conseqüências graves. A primeira delas cai como azeite puro na sopa de Sarney. Ele sai como o todo-poderoso, fortalece suas garras mais do que cravadas no coração do governo Lula e assombra possíveis adversários para as eleições de dois mil e seis.

A outra conseqüência cai sobre os candidatos derrotados. A versão Sarney embota as verdadeiras causas do resultado eleitoral, embaçando a lucidez de reflexões que precisam ser feitas pelos partidos e candidatos que perderam as eleições. Onde erraram? O que faltou? Tudo bem que não precisa ser agora, enquanto os arranhões ainda doem. Mas, é necessário fazê-las.

É, meu pai, não vivemos a saga de Chico Mendes, afinal, história não se empresta, se vive. E a nossa é por aqui mesmo, com os revezes da politiquinha local. Migramos para o Oriente em busca de trabalho e paz. Encontramos tudo isso e muito mais. Encontramos o vento sem cortes que brota do Amazonas em fartas rajadas de esperança. Estou certa de que um dia é da calma, outro da ventania.

Marcia Corrêa
Em 10.10.04