Fome de decência

Raros são os momentos de agradável solidão. No início da semana fui brindada com um deles por minha querida, porém sonora família. Era boca da noite e resolvi fazer uma sopa para o jantar. Separei cuidadosamente os legumes e as verduras, lavei-os com paciência, cortei com delicadeza a carne em cubinhos e passei ao refogado. Que cheiro maravilhoso invadiu a cozinha, modéstia à parte.

E como o silêncio é o som da sabedoria, mergulhei mansamente em águas reflexivas. O colorido emprestado aos meus olhos pelos vegetais, o alimento em abundância que logo estaria borbulhando na panela, a satisfação esperada no rosto de minhas filhas e dos demais membros da família, tudo isso me trouxe à memória o que havia me causado estupor no domingo.

A reportagem levada ao ar pela Rede Globo, através do Fantástico, fez vir à tona um problema que sabíamos, mesmo que não de forma presente na consciência, estar acontecendo. O dinheirinho da Bolsa Família (no máximo noventa reais por família), programa assistencial do Governo Federal, está sendo desviado. A parte que não chega à panela dos mais necessitados, engorda cinicamente o orçamento de quem tem casa de alvenaria, carro na garagem, salário, enfim, de quem não precisa.

Digo sabíamos porque nós brasileiros convivemos com a cultura da desconfiança. A desonestidade na aplicação do dinheiro público é tão comum no Brasil, que padecemos da síndrome do pé atrás. Acreditar em programas públicos é como fazer papel de otário. É, ou não é? A gente tem sempre uma piadinha, um arzinho de malícia na hora de comentá-los.

Não é para menos. E olha que a Bolsa Família entrou com gás de credibilidade, aliada à propaganda eficiente do Programa Fome Zero. Parecia que tudo ia bem. Cá com meus botões, torço sempre para que as coisas dêem certo, não sou do bloco dos desalmados. Então, a sociedade é informada que não é bem assim.

Como cidadã, sempre cismei com esses mecanismos de distribuição de renda, tendo como ponta as prefeituras. Espaços de disputa de poder político que são, dificilmente teriam a isenção necessária para realizar um cadastramento justo dos beneficiários. Se a idéia é apostar nas instituições democráticas, no mínimo o Governo Federal deveria ter levado em conta os previsíveis vazamentos dessa tubulação.

Quer coisa mais bem-vinda aos prefeitos candidatos do que um monte de dinheiro para ser trocado por votos? É isso que acontece. O cadastramento da Bolsa Família é poder. E poder nas mãos de quem faz política sem escrúpulos resulta em desvio de dinheiro público. Será que os gestores do programa não fizeram essa conta?

Enquanto a sopa chia no fogo vou dando minha modesta opinião. A sociedade civil tem espaços de solidariedade sérios. Suas instituições é que estão lá, onde a fome assombra os miseráveis desse país. São espaços onde o objetivo não é o voto, mas o bem-estar da população. Estou certa de que um cadastramento feito por entidades com credibilidade como a Pastoral da Criança, por exemplo, teria chances de fazer a Bolsa Família chegar nas mãos de quem precisa.

Transparência já para a Bolsa Família. As listas dos beneficiários deveriam ser publicadas, afixadas, acessadas para que todos possam ser fiscais em benefício das famílias pobres. Só assim a sociedade poderá ser parceira como deve e quer no combate à fome. Não apenas no momento de doar alimentos em postos de arrecadação, que muitas vezes têm o destino das cestas básicas politiqueiras.

Pra começo de conversa, que o exemplo seja dado pela prefeitura de Macapá. Durante a campanha eleitoral o prefeito João Henrique Pimentel deixou claro que o programa Fome Zero saltaria de menos de dois mil para dez mil beneficiários, uma vez que ele é do mesmo partido político do presidente Lula. Então, que esses dez mil sejam do conhecimento da sociedade.

Arrumo os pratos na mesa e lembro de ligar o som para ouvir Maria Rita cantar “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer... e em tudo o que eu faço existe um porquê... eu sei que eu nasci pra saber...”. No que ainda resta de minha agradável solidão fixo o pensamento para que aquele alimento maior, a decência, invada as entranhas obscuras das mentes de quem rouba o pouco de quem não tem nada. A sopa mais saborosa é a que serve a todos.

Márcia Corrêa
Em 20.10.04