Pouco brinquedo, muita sujeira!

Todo ano é sempre assim: a chegada do “melhor” parque de diversões na cidade vira um acontecimento para a criançada. Até para os pais mais cautelosos, a via sacra pelos brinquedos é praticamente inevitável. Não tenho filho, mas nessas épocas viro a tia predileta e sou arrastada pela euforia dos meus queridinhos. Ok! Vamos ao parque!!!

Desde a Expofeira que, entre outras, a sujeira é a marca registrada do parque. Agora, armado na Praça Zagury, em frente ao Igarapé das mulheres, a situação é ainda pior: muita poeira, pouca iluminação, sujeira por todo lado e nenhum tambor de lixo em toda a área.

Enquanto passeava, observava o comportamento das crianças e adultos. Quase todos com um copo, lata, lanche ou qualquer outra coisa nas mãos. Após consumir, lixo no chão! Fazer o quê? Não havia outro lugar para despejar os restos, vai ao chão mesmo. Enquanto isso, a sensação de abandono ia aumentando. Deu àquela impressão de aqui em nosso Estado as coisas são sempre feitas e organizadas de qualquer jeito. Como se não merecêssemos freqüentar lugares limpos, bem organizados, iluminados, decentes.

Fiquei imaginando a grande oportunidade que os órgãos ambientais e de educação perdem nesse momento. Pois não há espaço mais apropriado para uma bela campanha de educação ambiental. Em primeiro lugar, deveriam ter instalado dezenas de lixeiros em todo o parque, para que os visitantes tivessem alguma opção sobre o destino do lixo que produzem, depois, um trabalho criativo e bem humorado com as crianças faria sucesso. Bonecos, panfletos, faixas e brincadeiras em todo o parque chamando atenção da garotada para os problemas ambientais decorrentes da falta de acomodação adequada do lixo.

Não seria muito complicado fazer tudo isso, mas falta compromisso político e consciência ambiental, tanto público quanto privado de alguns gestores e empresários com a cidade de Macapá. Diante de cidadãos pouco exigentes, que aceitam as coisas como estão, o que vier é lucro. O Fato é que no Amapá, embora ostente o título de Estado mais preservado do país, os problemas ambientais já são muitos.

Ali mesmo, no local onde o parque embala os sonhos das crianças, podemos observar o quanto o lixo acumulado às margens do Rio Amazonas, degrada a paisagem e prejudica pescadores, moradores e feirantes. Recentemente a Secretaria de Obras do Estado anunciou uma ação emergencial de limpeza e drenagem do canal para facilitar o tráfego de embarcações. O secretário, em entrevista a uma TV local, disse claramente que um dos maiores problemas do local é o acúmulo de lixo.

Cuidar da cidade e mantê-la limpa não deve ser tarefa apenas da Prefeitura, trata-se de um compromisso de todos, uma questão de comportamento, diretamente ligado ao nível de educação e cidadania de um povo.

O relatório da organização não governamental WWF, publicado há poucos dia aponta para um estado de calamidade do mundo inteiro e faz um alerta geral de que estamos destruindo a natureza com uma velocidade muito maior do que sua capacidade de renovação. O que significa dizer que se não cuidarmos da nossa cidade enquanto há tempo, em breve muito pouco poderá ser feito. Nosso poder de destruição atingiu uma escala sem precedentes na história da humanidade. Gastamos nossas energias, quase sistematicamente, para causar uma destruição insensata em todo o mundo da vida natural e nas suas bases materiais.

A única forma de romper com essa lógica cruel do capitalismo devastador é investir, incansavelmente, em educação ambiental. Não basta adotar no Projeto Político Pedagógico da escola o tema de forma pontual e apenas discursiva, camuflando a falta da atitude. São necessárias ações mais efetivas. Dá o exemplo na prática é a melhor forma de educar uma criança, sobretudo na fase em que elas aprendem copiando e imitando os adultos. De que adiante falar para uma criança que o lixo polui o rio, se juntos, ao brincar na Praça, banhado pelo majestoso Amazonas, pais e filhos protagonizam cenas de crime ambiental, poluindo o local com latas de refrigerante e sacos de pipoca?

Ana Girlene Oliveira

jornalista

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