O papel do Grilo Falante

Nos últimos dias venho espiando de lado para uma réstia de sombra que insiste em me acompanhar. Sabe aquele assuntinho chato que você adia o momento de abordar, mas sabe que vai ter que parar uma hora e deitar dígitos no computador? Pois é, esse assunto é a função da reflexão, o exercício do debate, a necessária tarefa cognitiva de provocar o fluxo de informações do pensamento.

Vixe! Acho que falei difícil. Tem nada não. É que andei bebendo numas fontes teóricas para não entrar nessa conversa sem eira nem beira. Foi quando encontrei um texto exuberante do italiano Umberto Eco, que tem como pano de fundo a Guerra do Golfo, e como reflexão a função do intelectual.

Textualmente Umberto Eco defende que a função do intelectual “consiste em distinguir criticamente aquilo que se considera uma aproximação satisfatória do próprio conceito de verdade - e pode ser exercida por qualquer um, até mesmo por um marginal que reflete sobre sua própria condição... do mesmo modo como pode ser traída por um escritor que reaja aos acontecimentos de modo passional, sem impor a si mesmo a decantação da reflexão”.

Umberto ecoou no meu coração. É que ando encabulada com umas arengas da política local. Sim, porque de nada adiante recorrer à teoria se esta não for aplicável ao cotidiano obtuso. De certo é que os fatos da política passam e devem passar pelo crivo da reflexão, da contradição, do debate fraterno e democrático, da livre expressão e ninguém pode estar acima ou abaixo dessa perspectiva, ou então não faz política, faz fuxico.

Segue Umberto: “... enquanto a função intelectual consiste justamente em escavar as ambigüidades para trazê-las à luz... O primeiro dever do intelectual é criticar os próprios companheiros de estrada (pensar significa representar o papel do Grilo Falante)”. Eis a nuance mais difícil. O problema é que nem sempre os companheiros de estrada têm bons ouvidos para a crítica, muitas vezes nem os tem. Então, instala-se o conflito.

Às vezes, ficar em silêncio pode ser uma opção, mesmo tendo o que dizer e a quem dirigir suas observações. Essas podem atiçar o jogo da disputa política e atingir seus próprios aliados. Aqueles que você acredita que, apesar de seus erros, têm como objetivo final o bem coletivo. Escolha lamentável. Nesse caso, o silêncio é parco em crescimento. Como registrou o autor que me inspira, “... A lealdade é uma categoria moral e a verdade é uma categoria teórica... Não que a função intelectual seja separada da moral. É uma escolha moral exercê-la”.

A escolha moral consiste em debater aquilo que interessa ao coletivo de forma verdadeira e transparente. E mesmo que esse debate sofra os revezes da intolerância, é necessário fazê-lo, sob pena de omissão e colaboração com a mediocridade reinante, com a estagnação da realidade.

Exatamente quando concluía o parágrafo acima tive que dar uma parada para ir lá no quintal de casa soltar o cão, que late incansavelmente quando sua casa não é aberta às cinco da tarde em ponto. Zeus é o nome dele. Ralhando para que não ousasse jogar suas patas enormes sobre mim lembrei de um detalhe revelador.

Zeus, um Fila cor de mel enorme, assusta pelo tamanho, mas, com os de casa é um garotão. No entanto, a inteligência limitada de sua raça faz com que ele estranhe os amigos. Pessoas que não moram em casa, mas que vira e mexe estão por aqui, não contam com seu reconhecimento.

Por outro lado, Hannibal, o gato de minha filha mais velha, é todo intimidades com o Fila. No entanto, extremamente indócil para com seus semelhantes. Nem a solidão de mais um gatinho abandonado na calçada, que a mais nova trouxe pra casa, o comoveu. Ainda bem que não somos cães e gatos. Como humanos temos obrigação de encontrar saídas racionais e fraternas para nossas diferenças.

Márcia Corrêa
Em 27.10.04