Enfim, um herói de verdade

Lá vem o Jader! Gritavam, as meninas na calçada da escola Antônio João, que fica bem próximo à piscina onde o nadador treinou por longos 10 anos. Jader Souza (21), o amapaense medalha de ouro no PAN, virou celebridade. Mas, não só isso, porque ser celebridade, na maioria das vezes, trás um oco de conteúdo que transforma estrelas em pó da noite para o dia.

Muito mais do que isso, o garoto Jader é, enfim, o herói que nossa juventude, e mesmo nós que já passamos dos 30, 40, etc. esperávamos há séculos. Um herói construído com esforço pessoal, apoio de poucos e torcida de muitos. Um herói porque venceu várias batalhas: é negro, de origem modesta, nascido na Amazônia, longe dos grandes centros tecnológicos.

Alguém que foi longe buscar seu sonho. Ousou estar no mesmo lugar onde os mais famosos chegaram antes. Voltou dos jogos Pan Americanos com a medalha de ouro no peito e a façanha de ter sido o atleta a dar a braçada decisiva, aquela que deixou os americanos para trás.

E que sorriso largo tem o garoto. Do alto do carro dos bombeiros ele sorria e acenava o tempo todo para as pessoas nas calçadas, nas janelas das casas, nas lojas, nas praças. Jader merecia estar ali. E merecia mais. Merecia que uma multidão o tivesse acompanhado, o que infelizmente não aconteceu.
A infeliz cultura do tirar proveito de tudo, dominante na política do estado, intimidou a população. Esta preferiu ver Jader da calçada do que aderir à carreata, que não se sabia ser em homenagem ao nadador ou promocional do governador do estado. Mas, ele cumpriu seu papel. Sabe que precisa do patrocínio e deve agir com flexibilidade.

Aliás, acho que Jader nem quer entrar nessa discussão. Seu negócio é nadar e trazer medalhas. Tanto que, na piscina, ao final do dia, falou pouquíssimo e partiu direto para chamar as equipes que participariam do torneio de natação classificatório para o campeonato nacional.

Mas, não posso deixar de dar meu grito. Fazer meu apelo. Dar meu recado. Pelo amor de Deus, deixem o garoto em paz e não tentem transformá-lo em bandeira política. É constrangedor pensar que para manter um patrocínio fundado em dinheiro público, ele tenha que se expor em declarações, aparições e outras formas de exploração.

Esse patrocínio não é mais do que obrigação do poder público. Aliás, não deveria ser uma exceção, e sim fruto de uma política pública séria de valorização de todas as modalidades de esportes. Um programa que permitisse aos nossos atletas ter a segurança de treinar com bons equipamentos, ser alimentados com qualidade e poder participar de competições importantes.

Nossos parabéns aos heróis quase anônimos, como a professora Durica e o professor Sílvio Guilhermino, que junto com outros vêm lutando bravamente para que esses garotos e garotas da natação não desistam antes da hora. Batendo de porta em porta em busca de passagens e recursos para levá-los a participar de grandes competições, chorando com suas derrotas e vibrando com suas vitórias. Esses sim, mereciam ter desfilado em carro aberto junto com Jader Souza e tendo seus nomes clamados pelo locutor.

Márcia Corrêa
27.08.03