Judas por falta de decisão

O Presidente do PT do Amapá, Antonino Lobato, virou Judas na Semana Santa porque vem arrastando uma situação absolutamente insustentável. Como presidente do Diretório Estadual foi parte importante na transição do Governo Capiberibe para o Governo Dalva Figueiredo em abril do ano passado, na montagem do governo petista, na condução do Governo e da Campanha da candidata do PT e na posição - ou na falta de - do partido diante das graves denúncias que ainda hoje rondam os personagens principais da passagem do PT pelo governo do Amapá.

Mas, em que pese a sua participação em todos esses momentos, Antonino é freqüentemente apontado como “uma pessoa séria”, “um cara correto”, e atribui-se a ele a condição de “impotente” diante dos cenários políticos complicados que foram se avolumando diante do PT. É possível que seja assim. O fato é que chega uma hora em que a pele arde e não dá para ficar exposto ao sol sem protetor solar. Quero dizer que Antonino está, nesse caso, pagando o pato sozinho das confusões em que Dalva Figueiredo e sua turma meteram o PT. Que ele tem o dedo nesse angu, tem, mas, não só ele, convenhamos.

Então, chega uma hora que é preciso parar. Depois dessa avalanche de denúncias de todo o desgaste e abalo público em sua imagem, o PT precisa respirar, como se diz internamente, ser oxigenado.Para isso nada melhor do que começar um processo novo, em novas bases, com integridade, serenidade, transparência.

A renúncia coletiva do Diretório Estadual seria um bom começo. Não há como negar que houve e há omissão numa situação crucial para o partido como a apuração das denúncias contra a ex-governadora Dalva Figueiredo e o deputado Antônio Nogueira. A comissão de ética convocada sofre, no mínimo, de constrangimento, já que tem como integrantes pessoas que participaram do primeiro escalão do governo Dalva.

Enfim, um nó cada vez mais apertado a estrangular um dos partidos políticos mais importantes e mais sólidos do Estado. Está na hora de parar, pessoal. Uma nova eleição interna, uma nova direção, talvez fosse um bom começo. O tempo é sábio e mostrará a cada uma das pessoas envolvidas nesse imbróglio o momento de se posicionar, de retomar o rumo individual de cada um. Entretanto, a insistência na mesma estratégia ou na falta dela, de “reunificar” o PT sem arredar pé do status quo, sem sinalizar para a possibilidade de mudança nesse descaminho, sem abrir mão de espaços, sem ceder à necessidade de reconhecer os erros e só assim começar a construir o futuro pode comprometer ainda mais o PT, levando esse problema inteiro e até ampliado para as eleições de 2004.

É bom lembrar que um pleito inevitavelmente responde pelo anterior.Isso significa que o PT já terá bastante com o que se preocupar ao ter que responder em 2004 pelos erros cometidos em 2002. Se a situação interna não estiver senão solucionada, mas ao menos bem encaminhada, o cenário poderá ser mais complicado.

O estranho é que há uma certa anestesia na militância do PT. Em outros momentos, e por muito menos, as plenárias pegavam fogo e a direção do partido era obrigada a tomar rumo. Essa letargia cheira a ressaca de festa que não acabou bem. Fica todo mundo com aquele mau humor, comentando pelos cantos e com vontade de sumir das badalações por um bom tempo.Mas, o tempo urge e a disputa pelas prefeituras do Estado e pelas vagas nas câmaras de vereadores está em curso.

Voltando ao “Judas”, acho que Antonino Lobato não merecia estar nessa sozinho. Essa condição de servir de saco de pancada para proteger sabe-se lá o que ou quem não tem cabimento em tempos de governo Lula.O Brasil é outro, pessoal. Estamos inaugurando a chance de ver sonhos virarem realidade. E um deles ficou claro nas falas mais importantes de Lula, da vitória até sua posse: transparência, seriedade e intolerância à corrupção.

Só assim, e só assim mesmo, a sociedade brasileira e o governo central conseguirão espantar os fantasmas das estruturas viciadas deixadas pelas elites que nos dominaram por séculos. Assumir práticas lesivas a essa nova ética, a essa nova forma de administrar o que é público é o mesmo que sabotar a história. Varrer a sujeira para debaixo do tapete é querer manter vivo o martírio do povo brasileiro roubado, vilipendiado e usurpado em cada rincão desse país, sempre que o dinheiro e os bens públicos foram desviados pela corrupção.


Márcia Corrêa
21 de abril de 2003