Jogo de cintura e caldo de galinha não fazem mal a ninguém

Lucidez, atitude difícil e postura quase impossível para quem está envolvido até o pescoço numa disputa eleitoral. Começa pela alucinante agenda de busca ao eleitor, passando pela preocupação compulsiva pelas pesquisas sérias e por consultas menos confiáveis, terminando pela decisão, às vezes pouco conseqüente de eliminar moralmente os adversários. Mas, mesmo assim vamos tentar chamar atenção para um problema, mais um, que está surgindo entre o PT e o PSB do Amapá, fruto desse afã eleitoral, que pode trazer resultados desconfortáveis para ambos.

Aliados desde 1990, quando o médico Gilson Rocha, hoje vice-prefeito de Macapá, chegou ao segundo turno das eleições governamentais contra Aníbal Barcellos, PT e PSB vinham construindo uma sólida unidade de esquerda em torno do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. Entretanto, a solidez se desmanchou no ar diante da disputa pelo poder. Aí surge o problema que queremos abordar.

Apoiador declarado de Lula, candidato do PT à presidência da República, o ex-governador e candidato a senador João Alberto Capiberibe, diante do tratamento dado pelo governo de Dalva Figueiredo aos filiados do PSB - leia-se demissões - não anda muito animado com o apoio a Lula. Ouve-se de filiados do PSB o crescente sentimento, ou ressentimento, contra o PT, que poderá refletir na votação de Luis Ignácio Lula da Silva no Estado.

Por outro lado, a unanimidade das esquerdas para o Senado, João Alberto Capiberibe, pode ter sua votação diminuída por decisão de uma parte do PT que vê no ex-governador o grande algoz do rompimento, por não ter aceitado apoiar a candidatura de Dalva Figueiredo ao governo do Estado.

Com relação a Lula, o efeito é mais moral do que eleitoral, já que o Amapá representa um colégio pequeno diante do cenário nacional. Mas, com a crescente ascensão de Ciro Gomes, qualquer colégio se torna importante numa disputa acirrada no segundo turno. É bom lembrar disso. Para Capi, o primeiro nas pesquisas para o Senado, a postura ressentida de alguns petistas pode arranhar e tirar um pouco o brilho de uma votação que poderia ser um banho histórico para a representação do Amapá no Senado Federal.

Quem perde com isso? O Amapá certamente. Lula não ser bem votado num Estado governado pelo PT é um problema político para PT, mas Lula perder as eleições por falta de habilidade política da esquerda será um problema enorme para o Brasil. Capi deixar de ser votado massivamente pode ser um problema político para o PSB, mas, Capi perder a eleição por falta de lucidez da esquerda, será desastroso para o Amapá e para o país. Repetindo o bom conselho, mesmo com toda a adrenalina da disputa, os dois partidos deveriam trabalhar por suas unanimidades com mais jogo de cintura.

Márcia Corrêa
Em 01/08/02