Entre o luxo e o lixo

Cheiro de padaria é um luxo. Pão quentinho, caldo-de-cana gelado, balcão repleto de delícias, bolos recheados de goiabada. Uma festa! Entro numa delas, na esquina da Rua Jovino Dinoá com a Av. Nações Unidas, bairro Jesus de Nazaré, e observo a falta de cuidado com a limpeza do local. Em todo caso, um iogurte, por favor! Olho o prazo, vencido. Peço a troca. Outra marca, também vencido. E as garrafinhas continuam ali no balcão frigorífico impunemente. Vou de água mineral mesmo.

Que belo final de tarde. Nessa época do ano o sol se esmera em pintar aquarelas no céu. Incontáveis tons de azul, do claríssimo ao anil, matizando as bordas das nuvens, um luxo para os olhos. Desço a ladeira da Nações Unidas rumo ao bairro do Laguinho. Em contraste com a luminosidade da tarde de segunda-feira, o mau cheiro do esgoto que desce nas laterais da pista, amarga com fel a poesia que vem do alto.

Do lado esquerdo da avenida um homem de cabelos bem branquinhos, pele enrugada, curvado sobre uma vala, se esforça para tirar o lixo acumulado. Passo por ele, que levanta os olhos buscando cumplicidade para sua indignação solitária. A porcaria que desce da padaria se acumula diante de sua casa. Respondo com um franzir de sobrancelhas sincero.

O asfalto irregular obriga os passantes a se esquivar dos carros, caminhões e ônibus que passam estressados pela avenida estreita. E sigo subindo para o asfalto quando não vem carro, descendo para a terra, e tentando me livrar da lama quando dá. Surge uma calçada, que sensação boa. A cidade oscila em qualidade a cada metro quadrado. Não dá para caminhar com tranqüilidade e segurança nas ruas de Macapá.

Na parte baixa da ladeira, esquina com a Rua Odilardo Silva, poças d’água se formam de um lado e outro, estreitando ainda mais o trecho. E mais lixo espalhado pelas laterais. Na subida da ladeira, terrenos baldios, daqueles com sessenta metros de fundo, revelam matagais de abandono. E os vizinhos que se virem com as cobras, mosquitos da dengue e carapanãs da malária que possam fazer cria por lá.

Mas, olhar o movimento do Laguinho pela janela que se abre com a aproximação da rua Eliezer Levy dá gosto de viver aqui. Ainda bem que abriu uma floricultura bem na esquina. O verde em várias formas, flores coloridas, rosas cheirosas, arranjos bem cuidados, uma beleza. Dia desses encostei lá em comprei uma roseira cujas flores vermelho sangue revigoraram meu jardim. Um luxo de rosa encarnada.

O colorido acompanha a curva na direção do bairro do Pacoval. Logo em frente atravesso um corredor de terra cercado de mini-flamboyants. “...flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho!”, escreveu certa vez o cronista Rubem Alves. Pedaço de poesia numa esquina no Laguinho.

Mais na frente, uma esquina diferente, nove cachorros imundos emporcalham o pátio de uma casa. Tudo bem, é lá dentro. Ninguém tem nada a ver com o gosto do dono por cachorros. O problema é a sujeira que deixam por onde a gente passa. Prefiro atravessar a rua aos solavancos com o recorte mal acabado do asfalto.

De novo os mini-flamboyants. Nunca havia prestado atenção na sua presença tão significativa pelos quintais do Laguinho. Dessa vez os arbustos cercam inteiramente uma casa de madeira, daquelas que ainda resistem ao progresso dos tijolos e das marquises. Que belo contraste, o vermelho vivo dos cachos de flores pintando a altura dos galhos verdes e no fundo o marrom úmido da casa. Pensei naquelas cabanas na floresta, que via nos filmes do Daniel Boone.

Estou quase chegando em casa e o Laguinho me ensina tanta coisa. Não pude deixar de esticar o pescoço para animar meu coração com a alegria da garotada brincando, jogando, se exercitando na quadra de esportes da escola Augusto dos Anjos. Acho bonito escola com nome de poeta. “A Esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança”, escreveu o poeta que dá nome à escola.

Mais uma esquina no caminho. Resolvo entrar na padaria que se instala bem de canto com a Av. Pedro Américo. Desta vez o iogurte está com o prazo de validade correto. Aproveito para levar o pão carequinha do final de tarde e uns deliciosos monteiros lopes que fabricam por ali. Sinto até o cheiro do café que me espera em casa. A claridade da tarde faz a curva comigo e entra pelo bairro do Pacoval. Não faz calor e o vento incansável de Macapá sopra de leve só para manter o ar equilibrado.

Lá vem o Amapá descendo a ladeira. A mulher negra desce majestosa a Rua Mato Grosso, com saia rodada, estampada com flores vermelhas. A blusa bem branca exibe renda no contorno do folho. Flor no cabelo e o balançar cadenciado da ancestralidade alí visível. Tem Marabaixo hoje? Pergunto com vontade de ir fotografar. É uma apresentação que a gente vai fazer na Praça da Bandeira. Marabaixo mesmo vai ter no domingo, lá no Pavão, explica ela, deixando clara a diferença entre a apresentação oficial, que é feita nos eventos chatérrimos de governos e prefeituras, e aquela pra valer, do calendário profano da festa do Divino Espírito Santo. Luxo só.

Desvio o olhar para o barranco que se estende na borda da Mato Grosso e mais lixo e entulho ocupam a paisagem. Esse trecho guarda na memória dos moradores muita tristeza. Até hoje nenhum poder público conseguiu frear a velocidade do tráfego na principal rua do Pacoval e muita gente já perdeu filho, marido, sobrinho vítimas do trânsito. Dor e impunidade. O descaso é um lixo.

E o céu cor de Safira me lembra que o mundo é assim mesmo, habita o reino das contradições, constrói ilusões, destrói verdades absolutas, ergue esperanças, abre os braços para quem quiser fazer algo para mudá-lo constantemente. E de contentamento em aborrecimento a gente vai fazendo o que pode e o que não pode, às vezes, para plantar flamboyants e rosas perfumadas pelo caminho.

Márcia Corrêa
Em 1º de junho de 2004