Calafetando a Cidade...

A campanha desorganizada de calafetar as ruas da cidade é resultado de alguma pesquisa de opinião pública realizada para saber o que o cidadão gostaria que o Governo fizesse de imediato. Ao optar pelo asfalto, o cidadão deveria ser informado que o Estado não têm saneamento básico, principalmente sistema de esgotamento sanitário, e que a ausência desta infra-estrutura é responsável pela grande incidência e proliferação de doenças de veiculação hídrica no Estado.

Infelizmente, prevalece entre os governantes a premissa criminosa de que saneamento básico não dá voto e depois “é o povo que pede o asfalto”. Mas será que se a população fosse informada sobre seus benefícios isso não aumentaria as reivindicações políticas pelo saneamento?

O índice de saneamento básico (água, esgotamento sanitário e tratamento do lixo) é um dos indicadores utilizados para calcular o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A existência de saneamento básico eleva o IDH, pois há uma relação direta entre a oferta de saneamento básico e a qualidade da saúde da população.

Segundo comparações bastante divulgadas (exceto no Amapá) e aceitas internacionalmente, para cada R$ 1 (um real) investido no setor de saneamento são economizados R$ 4 (quatro reais) no setor de saúde. Estudos sinalizam que essa relação é próxima de R$ 100 (cem reais) no Brasil, já que a falta de saneamento torna mais grave a situação do Sistema Único de Saúde (SUS).

A princípio, a lógica da infra-estrutura urbana é seqüencial, ou seja, primeiro instala-se o sistema de abastecimento de água e de esgotamento sanitário, para depois o asfalto. Não gostaria de ser pessimista, mas a tendência é a qualidade de vida piorar cada vez mais no Amapá a considerar a continuidade da total ausência de investimentos públicos em saneamento básico.

Estimo que cerca de ¼ da população do Amapá vive em palafitas ou em áreas insalubres. Não existem estatísticas sobre os custos de tratamento de doenças da população provocada pela ausência de saneamento básico, mas pela grande demanda sobre o setor de saúde sabe-se que a situação é alarmante.

Não acredito em soluções imediatistas, nem em promessas eleitoreiras. O problema decorrente da ausência de saneamento básico no Amapá é grave e precisa ser enfrentada com políticas públicas de longo prazo, no mínimo projetada para 10 anos. Não incluí nesta breve análise a precariedade do sistema de coleta e tratamento do lixo no Estado que aumenta o risco da população contrair doenças.

Marco Antonio Chagas, doutorando em desenvolvimento sustentável pela UNIFAP/UFPA-NAEA.

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