As Putas de Garcia Márquez e Sarney

Gabriel Garcia Márquez, ao completar noventas anos de idade, resolveu lhe auto-presentear com uma noite de louco amor com uma adolescente virgem. A dona do bordel que freqüentava desde os 12 anos de idade foi a encarregada da árdua missão de encontrar o tesouro. Conseguiu uma bela virgem de 14 aninhos para Gabriel se deliciar. Na hora da trepada a menina dormiu e ele se apaixonou pela ninfeta. Essa história deu origem ao romance “Memória de minhas putas tristes”, há algumas semanas nas listas dos mais vendidos em todo mundo.

O colombiano, prêmio Nobel de literatura, fala de sexo com despudor e instiga a imaginação daqueles que nunca tiveram uma puta-virgem para comemorar seu aniversário ou mesmo para currículo. Gabriel Garcia Márquez brinca com as palavras, provoca risos, derruba tabus. Não esconde sua preferência pela retaguarda, mas paga bem:

“Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. Lá pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo. Até os cinqüenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez”, relata Gabriel Garcia Márquez.

Nas selvas do Amapá e da Guiana, o escritor José Sarney foi buscar inspiração para criar “Saraminda”. A bela morena que seduzia os garimpeiros da região do Calçoene era na verdade uma puta. Diferentemente de Gabriel Garcia Márquez, que era o protagonista do romance, em Saraminda, José Sarney se disfarça:
“Seus seios, pontiagudos, brilhavam como o ouro. Talvez fosse esse o maior encanto que a crioula Saraminda, de sangue francês, tenha exercido sobre Serapião Bonfim, o abastado garimpeiro que no final do século passado dominou parte das riquezas da região de Calçoene, entre o Brasil e a Guiana Francesa. Serapião desejou profundamente aquele corpo sensual. Arrematou-o por 10 quilos de ouro, em um leilão em Caiena, capital guianense, e levou Saraminda para o garimpo, onde ela reinaria absoluta. Lá, tornou-se escravo dos caprichos dela.”
“Saraminda”, traduzido para vários idiomas, é tão excitante quanto “Memória de minhas putas tristes”. Pela riqueza descritiva do cenário em que se passa o romance e pelo registro de um importante momento da história do Amapá, “Saraminda” deveria ser leitura obrigatória dos vestibulares locais e preferencial daqueles tucujus que cultuam boas leituras:

“O Brasil e a França, até o fim do século XIX, disputavam o território entre os rios Oiapoque e Araguari, hoje Estado do Amapá. A questão foi resolvida pela arbitragem da Suíça, que reconheceu o direito brasileiro, interpretando o Tratado de Utrech, de 1713, que estabelecia os limites da América portuguesa. É uma região de imensas florestas, desconhecida, mística, de grandes e encachoeirados rios, que correm para o sul, na direção do Amazonas, ou para o Atlântico, a leste. Depois da descoberta das minas de ouro, no lendário rio Calçoene, aventureiros, desbravadores, embusteiros, heróis e vagabundos correm para a região: franceses créoles de Caiena e brasileiros do Pará e Maranhão. Abre-se na solidão daqueles vazios uma floresta sangrenta, de violência e paixões, onde se luta por território, mulheres, aventura e riqueza. Foi nesse mundo e nessa época de magia, entre a realidade e a fabulação, que viveu Saraminda”.

Bem que Sarney poderia se dedicar mais às letras!


Marco Antonio Chagas, mestre em desenvolvimento sustentável.