Só uma maré baixa

De vez em quando me pego pensando sobre essa minha condição de amazônida pela metade. Nasci na cidade de Manaus, passei a maior parte da vida na cidade de Macapá, vivi bons momentos na cidade de Belém. Sempre as cidades. Cidades da Amazônia, capitais a meio caminho das metrópoles, mas, com os pés fincados no meio da floresta, ou seja, nem lá, nem cá.

Isso resulta num ser humano da Amazônia, que mal sabe diferenciar um peixe de outro, a não ser os grandes como o tambaqui, a pescada branca, a amarela, o filhote, o tucunaré, a gurijuba e, é claro, o pirarucu. Também, né?

Aí eu fico ouvindo amigos conversando sobre as curvas de rio, as aventuras pelas estradas, imitando do linguajar “cabuçu” dos ribeirinhos, as travessuras da infância pelas canoas rio abaixo, rio acima. Dá uma sensação estranha de não pertencer, de não sentir com a mesma intensidade essas entranhas da mata, dos banzeiros e da simplicidade requintada da vida na floresta.

Olho no espelho e não vejo muitos traços daquela mística cabocla, pele morena, cabelos como os das índias. Também, não enxergo com tanta nitidez a herança portuguesa que me corre pelas veias. Êta mistura danada, que faz a gente se sentir uma salada de frutas batida no liquidificador. Hei! Tem alguém aí que se sente assim?

Penso que sou parte de uma Amazônia que ainda não se viu no espelho. Pelo menos não no espelho dos poetas ou dos sonhadores. Esses cantam a alma dos que conhecem a mata, seus pássaros, seus sons mais sutis, seus mistérios, suas agruras, sua sofreguidão. Contam histórias de pescadores, seringueiros, tarumãs, aldeias, matapis. E têm tanto o que contar.

Pertenço ao lado mais empobrecido da poesia urbana. O lado da cidade vazia de saudades, preenchida por antenas de tv, corrompida pelos vícios dos instintos dos homens, mal-cheirosa dos esgotos entupidos. A cidade que engole a pureza das meninas do interior e as transforma em babás mal remuneradas de bebês e de marmanjos.

Sou desse lado novo da Amazônia, que é tão velho quanto a mais velha profissão do mundo. O lado das ruas cheias de lixo. Que droga! Macapá não tem mais cadeiras nas calçadas nem jogo de queimada no meio da rua. Ih! Já tem rush, aquela confusão no trânsito ao meio-dia. Tem assalto a mão armada e muita gente apressada, buzinando, xingando.

E quem ficou no meio do caminho que se dane para encontrar alguma identidade. E mesmo que alguns sábios pensadores defendam que o melhor é não ter nenhuma, o outro lado da moeda é uma imensidão de possibilidades que podem não dar em lugar algum.

Por isso ainda fico matutando sobre minha possível identidade amazônico-urbana. E certo dia, nos meus tempos de PT, um amigo inventou que eu deveria ser vice numa chapa majoritária para as eleições estaduais. Mas, eu nunca tinha ido ao Oiapoque, não conhecia Laranjal do Jarí. Essas coisas devem ser pra quem tem estrada e outras colheitas mais.

No mais, rogo aos poetas que anistiem nossa tribo dúbia de cidadania e de florestania do exílio árido das paredes de concreto das cidades. E nos mandem uma cartinha sobre aquilo que não trazemos na vivência, por pura imprudência do destino, mas com o que embebedamos nossas almas confusas, difusas, inócuas diante da magnitude da realidade.

Se houver mais meia dúzia de criaturas que peguem no remo de mau jeito como eu, querendo sair por aí singrando os rios na maior desenvoltura sem aprumar a canoa. Então já somos uma tribo. É esse sentimento de estar entre o que somos e o que teoricamente deveríamos ser que nos identifica. Então, não vamos mais ter vergonha de não gostar de carne de caça, de não sabermos o que é exatamente um repuxo, de não cantarmos o mesmo réquiem por nossos antepassados.


Márcia Corrêa
Em 1º de maio de 2004