Não queria estar ali...

A noite acabara de chegar, ainda condescendente com os últimos focos de luz solar que bronzeavam as nuvens. Na porta da primeira igreja da cidade, a Matriz de São José, mulheres em singelas blusas de algodão conversavam num canto à espera da missa. Os movimentos suaves dos fiéis, chegando aos poucos, a revoada de freis capuchinhos arrastando suas túnicas franciscanas, davam ao momento a cor da celebração que se anunciava.

Nenhuma revolta aparente, afinal, a morte em riste de uma freira americana doía no fundo da alma, mas os brasileiros estão calejados pela violência que não encontra nichos, espalha-se feito fogo na mata acuada.

A data, dezoito de fevereiro, registrava o sétimo dia da morte de irmã Dorothy Stang. Aquela mulher franzina, muito branca, com sotaque ainda forte apesar dos trinta anos que marcaram sua decisão de se embrenhar pelas paragens mais tensas da floresta amazônica, defendendo aquilo que Deus destinou a todos os seus filhos, a terra e todas as suas riquezas. Aquela mulher que o Brasil reconheceu após ter sido impiedosamente assassinada num caminho de chão de Anapu, município paraense.

Sete dias. Sete facas amoladas espetando a garganta do povo brasileiro. E foi assim, com o choro engatado na garganta, que o incansável guerreiro da luta pela terra no Amapá, Sandro Gallazzi, da CPT, pronunciou as primeiras palavras naquela noite de pesar. Não era o Sandro vigoroso que denuncia aos quatro ventos as injustiças, as ocupações ilegais, o grande projeto predador. Mas, um homem cabisbaixo, entristecido, talvez cansado de perder amigos para as balas do grande latifúndio.

E ele pediu perdão a Deus pelos desmatamentos, pela grilagem de terras, pelos crimes contra a natureza e contra a humanidade. Lembrou que irmã Dorothy foi fiel àquilo que acreditava até o momento de sua morte. Suas últimas palavras, diante dos assassinos com revólveres em punho, foram versículos da Bíblia que ela carregava como única arma contra os poderosos.

Lembrei do canto de entrada, um trecho ficou ecoando na minha cabeça durante toda a missa. Algo assim “...tenho que gritar, tenho que arriscar, ai de mim se não o faço! / Como escapar de ti, como calar, se tua voz arde em meu peito?...” Assim viveu irmã Dorothy e vivem todas as pessoas que dedicam suas vidas às causas da justiça, da igualdade.

No entanto, irmã Dorothy não era apenas mais um ícone da luta pela terra, pelo desenvolvimento sustentável. Era um ser humano que escolheu viver para a humanidade. Tinha amigos, milhares deles, família, uma congregação, toda uma organização religiosa e social para quem prestava contas de seu trabalho. Sua morte é uma cratera aberta no coração de todo esse universo.

Vi isso muito claramente na expressão sofrida do rosto de Ana Maria Rizzante, dirigente da CPT e organizadora da celebração. Como estás? Perguntei na entrada da Matriz. “Apenas estou... Não queria estar aqui mais uma vez fazendo isso... E por ela”. Respondeu contendo as lágrimas. Então pensei, nem eu queria estar ali, não por aquele motivo.

Pouco depois, a leitura do livro do profeta Isaías falava direto aos meus pensamentos. “O Senhor Javé me deu uma língua preparada, para que eu saiba dizer palavras boas ao que está cansado...”. Naquele momento com Ana Maria as palavras não acudiram. Palavras, ah o peso das palavras! O alcance de seus significados. A força de suas conexões. “Felizes os fazedores de paz, porque serão chamados filhos de Deus...”, com a palavra o evangelho de Mateus.

Na Igreja iluminada ecoava o canto, “venham todos cantar um canto que nasce da terra / canto novo de paz e esperança em tempos de guerra. Neste instante há inocentes tombando por mãos de tiranos...”. Era o momento do ofertório. Um punhado de terra, água e flores na pequena procissão, entregues ao bispo Dom Pedro José Conti.

De sua fala brotaram fortes e contundentes lições. “Vamos ter que começar a sentir revolta pela nossa indiferença. Por que não queremos saber o que está acontecendo. Porque achamos que a responsabilidade é sempre dos outros. Não queremos ser incomodados por esses fatos tristes...”. O bispo falava para uma platéia silenciosa e reflexiva. Jovens, senhoras da comunidade, religiosos, homens atentos. Tive a impressão de que novos tempos riscam o horizonte da Igreja Católica no Amapá.

Ecos do que disse Dom Pedro Conti e os representantes das pastorais escaparam pelas portas abertas que cercam a velha Matriz de São José, preenchendo de esperança o céu já escuro. Pena que a os veículos de comunicação do estado, aqueles de grande alcance, não estavam lá para registrar a riqueza histórica da celebração. Além deste website, apenas a imprensa da própria Igreja acompanhava a estréia do bispo no exercício de formação das opiniões católicas do nosso estado. Mais um canto, o de comunhão. “... Os profetas não se calam denunciando a opressão / pois a terra é dos irmãos / e na mesa igual partilha tem que haver”.

Braços erguidos, mãos que rogavam em uníssono o Pai Nosso dos Mártires, aquela prece que santifica a Deus e revela toda a crueza da condição humana, mas, acima de tudo pede “o pão que traz humanidade”. Forte também a sintonia das vozes com a poesia popular em Funeral do Lavrador. “Esta cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida... é a terra que querias ver dividida”.

Às vinte horas o silêncio se fez. Todos de volta para suas casas, para suas vidas, para seus problemas. Farfalhar de roupas no corredor de piso antigo, despedidas contidas, pressa de alguns, serenidade de outros. A vida continua e a impunidade terá fim um dia. Quero estar aqui, nem que seja de volta, para ver isso. Por enquanto fico com as palavras do profeta, as do bispo, as de Sandro, as de Ana Maria.

Márcia Corrêa
19.02.05