27-5-2002

A paz não está nos planos do neoliberalismo


Sábado passado dezenas de pessoas simples, gente trabalhadora que mora nos bairros onde a violência bate às portas diariamente, saíram às ruas do Congós e do Buritizal, em Macapá, pedindo paz. Essa é uma cena que se repete há anos pelo Brasil afora, no campo e na cidade, entre chacinas, linchamentos, assassinatos, balas perdidas, seqüestros, guerras urbanas e tantas outras formas pelas quais a violência se apresenta. Das ruas saem os gritos roucos, o apelo de quem vive pelo medo. Do outro lado a indiferença do Estado (estado nação), que não consegue ou não quer apresentar idéias e ações capazes de conter ou pelo menos sinalizar para a solução do problema.

O projeto neoliberal, pensado pela elite econômica mundial para o planeta do pós II Guerra Mundial, é um projeto econômico, social, político e ideológico. Um ano antes do final da guerra, precisamente em 1944, as primeiras idéias desse projeto foram alinhavadas pelo austríaco Friedrich Hayek. Mas, só nos anos 70 elas ganharam terreno inspirando o economista norte-americano Milton Friedman, que construiu um conjunto de medidas econômicas e programas políticos que apontam para o fim da intervenção do estado na economia e para a total liberdade e mobilidade do capital. Nasce então a era da globalização da forma mais estruturada e organizada em defesa das elites capitalistas internacionais.

Sob o aspecto social, o projeto neoliberal é claro na sua estratégia de patrocinar a fragmentação da sociedade. Uma vez dividida, a sociedade não tem solidez suficiente para por em xeque a hegemonia em vigor, o pensamento dominante, a orientação política preponderante. E aí o sistema do mercado livre, da ausência de barreiras para as transnacionais, da retirada de investimentos nas áreas sociais e da destinação do recurso público para sanear instituições financeiras falidas encontra terreno fértil para crescer e se esparramar principalmente nos países do Terceiro Mundo.

Uma sociedade fragmentada perde a compreensão de sua abrangência e, conseqüentemente, deixa de levar em conta as utopias sociais, dando lugar à idéia do salve-se quem puder, do cada um por si. Aos pedaços, a população anula as soluções coletivas e não crê na sua própria capacidade de organização, está sem rumo, sem objetivos, sem esperança. É a "mão-de-obra amansada pela precarização", como escreveu Pierre Bourdieu, no jornal Le Monde Diplomatique.

Pobreza, fragmentação, ausência de utopias, falta de sentido de nação. Esses são alguns dos ingredientes fundamentais para se criar no país a guerra surda que existe hoje no Brasil. O Rio de Janeiro, espelho mais evidente desse conflito quase irremediável, mostra a que ponto pode chegar uma sociedade que não se reconhece como agende da condução de seu próprio destino. De um lado o poder assustador do narcotráfico, desafiando frontalmente o poder confuso e corrompido do estado. Do outro, polícias, exército, governo e estrategistas sem estratégia nenhuma para erradicar o poderio do crime organizado. No meio de tudo uma população atordoada que ora faz passeata pela paz, ora ataca a polícia, ora sai em defesa dos traficantes.

O rigor das idéias do neoliberalismo é tal, que chega a propor uma taxa "natural" de desemprego, como forma de manter uma massa suficientemente numerosa de pessoas desempregadas, quebrando assim a força dos sindicatos e permitindo uma política de baixa remuneração. Desemprego, esse é o central da questão. Se não há emprego, não há renda e como disse o poeta Gonzaguinha: "sem o seu trabalho, um homem não tem honra, sem a sua honra se morre, de mata..."

Definitivamente o combate à violência não é prioridade do governo de Fernando Henrique Cardoso. Com todo o aparato do estado nas mãos, polícias, técnicos, organismos de planejamento, dinheiro e poder de mando, não é aceitável que o governo brasileiro não apresente um programa sério e exeqüível de enfrentamento do crime organizado e das diversas formas de violência. Essa não é uma prioridade da cartilha do FMI. A cartilha neoliberal exige e o estado brasileiro cumpre a tarefa de manter a moeda estável, proporcionar condições jurídicas para as operações do capital transnacional, oferecer mão-de-obra barata e ponto.

O governo brasileiro com todo seu aparato não tem soluções, mas o Instituto Cidadania, uma ONG sediada em São Paulo, em condições estruturais infinitamente menores que as do estado, reuniu pessoas da área, vontade política e conseguiu construir um programa de combate à violência, que tem recebido aplausos até dos mais ácidos críticos de seu mentor, o pré-candidato do PT à presidência da República, Luis Inácio Lula da Silva. Programa na mão, querendo a elite internacional ou não, o Brasil precisa, por uma questão de vida ou morte, achar o caminho para erradicar o medo, a impunidade e render o crime organizado.


Márcia Corrêa