Olhar de menina triste

Tainara é uma menina magra, alta, cabelos secos e maltratados. A pele morena revela as dificuldades de nutrição, as roupas surradas e o jeitinho de chegar, meio envergonhada, como se perguntasse com os olhos se pode entrar, se pode estar naquele lugar, se tem direito de usufruir a companhia das demais crianças, são os cartões de visita da pobreza em que vive.

Aos doze anos, ajuda a mãe em casa, estuda e enfrenta a fome que se avizinha de sua família freqüentemente. No sábado passado ela chegou atrasada ao local onde participa semanalmente de um grupo de evangelização espírita. Não deu pra chegar cedo tia, foi se explicando.

Junto com a voz baixinha e rouca uma lágrima solitária se formava no canto do olho, ameaçando descer pelo seu rosto. Ela calou um pouco, foi levada para um cantinho longe da algazarra das outras crianças, e completou, minha irmã foi mordida por um cachorro. Mas já foi atendida? Perguntaram. Aí ela não segurou, deixou o choro desengatar da garganta e ficou ali até se acalmar.

Um cão da raça Pit Bull, do vizinho, empurrou a tábua solta da cerca e invadiu o quintal de sua casa. A irmã de cinco anos foi atacada pelo animal, teve mordidas na cabeça e nas costas. Atingiu o osso dela tia, disse entre soluços. E o dono ajudou? Não. Por quê? Ele não quis saber. E onde ela está? No hospital, internada, mas a minha mãe não tem dinheiro para ir pra lá ficar com ela.

A mãe também não teve dinheiro para levar a criança ferida de ônibus. Mas, vocês chamaram a ambulância do Corpo de Bombeiros? Chamamos, mas eles não apareceram. Aí nós viemos aqui no quartel do segundo batalhão e a minha mãe pediu pra eles levarem a gente até o Pronto Socorro. Eles levaram? Não. A gente foi a pé carregando a minha irmã.

Elas moram no Jardim Felicidade, zona norte da cidade. O Pronto Socorro fica no bairro Santa Rita, para além do Centro. Caminharam horas para ter atendimento, num lugar que parece ter esquecido todas as regras de respeito ao ser humano. O vizinho se omitiu, o poder público falhou duas vezes e uma mãe com duas crianças, uma delas dilacerada por mordidas de um cão feroz, ficaram à mercê da dor, do sofrimento e do desamparo.

O show de mágica e os palhaços que brincavam com as crianças ocuparam por algum tempo os pensamentos de Tainara. Momentos de alívio para um cotidiano tão pesado. A alma da menina se deixou voar por algumas horas, mas aquele olhar triste estava lá, meio perdido, fugindo de vez em quando para buscar a dor da irmã, a angústia da mãe, as respostas que parecem não estar em lugar nenhum.

Márcia Corrêa
Em 28.06.04