Olhos de fogo

Há dias busco driblar o tempo, ou a falta dele. Procuro silêncios, quietudes, só para sentar comodamente diante do computador, como agora, e tentar organizar as lembranças recentes de uma breve e revitalizante estada na comunidade do Ariri.

Faltam quinze minutos para as três da manhã e fecho os olhos para clarear a mente com os raios daquele sol reconfortante que aquece, ilumina, colore as águas do Matapi, seu entorno de florestas, seus adornos de canoas, pessoas, galos, periquitos, borboletas, aves, peixes...

Feita a viagem mental, estou de volta a uma rede de náilon azul, estendida de uma viga a outra do trapiche, bem diante da grandeza do rio. Na escadinha lá embaixo as crianças riem, nadam, conversam, mergulham e dão saltos em piruetas, esquecidas do mundo.

Observo então que o rio faz um movimento diferente, como se respirasse, estufando as águas e recolhendo-as um pouco. Não tem maresia nem correnteza. Está cheio, descansando para recomeçar o movimento de volta até baixar.

Do outro lado, onde uma construção em madeira e alvenaria funciona como sede social da comunidade, um vai e vem de gente revela que haverá festa no lugar. Um pouquinho mais acima fica a igrejinha em construção e logo depois a escola de ensino fundamental. Tudo bem visível de onde observo.

O pequeno microsystem cala no meio de uma canção romântica, de um cd que gravei com clássicos da word music. Só depois reparo. Até porque a tarde cai mansamente e os sons do lugar me são suficientes para preencher o espírito. É quando uma das meninas grita, tia cadê a música? Põe a Adriana Calcanhoto pra gente. E nada de energia.

A claridade do sol dá lugar a um céu matizado em rosa, lilás, azul com sutil degradê. Quase sou sugada pela atmosfera verde do lugar. O tom musgo das enormes árvores tinge o rio de escuro, deixando escapar espelhos reluzentes aqui e ali, onde os últimos raios de luz ainda conseguem penetrar.

Horas antes um boto brincalhão fizera a festa das meninas. Saltara no meio do rio, depois mais adiante, e depois mais na frente, em direção ao trecho em que o Matapi se encontra com o Flechal. Dizem que lá é a morada de muitos deles.

O movimento do outro lado cresce num certo frenesi. Se a energia não voltar, a festa de encerramento das aulas das crianças, com entrega de boletins, premiações, apresentações teatrais e tudo o que foi exaustivamente ensaiado pelas professoras com os alunos vai ficar seriamente comprometida.

Antes que a noite tome conta do cenário, descendo seu véu de escuridão numa irremediável decisão frustrante, ainda consigo ver as meninas da comunidade chegando com vestidos brancos rodados, cabelos arrumados para festa de encerramento. Que droga! Estão lindas e essa energia que não chega. Volto a atenção para as minhas meninas e determino, sob protestos, que o banho de rio está encerrado.

Noite alta, apenas luzes de lanternas e faróis dos carros que vieram da cidade para a festa iluminam a pequena sede social. O burburinho que ecoa de lá dá conta de que o pessoal ainda não desistiu da festa. À luz de velas, as minhas meninas conversam e comem biscoitos deitadas em redes na varanda enquanto observo do parapeito a chegada de Joel, o caseiro.
Ele amarra a canoa na viga do trapiche, caminha pela ponte até a casa e vem logo dizendo. Foi um homem que comprou um terreno ali pra baixo e tocou fogo pra limpar o mato. O fogo pegou no poste da CEA. Estava explicada a falta de energia.

A margem esquerda do Matapi, às proximidades da comunidade de Ariri, há trinta e três quilômetros de Macapá, está sendo toda loteada para construção de casas de final de semana. Terrenos de trinta por trinta metros são vendidos pelos donos originais, membros da comunidade, por cinco até dez mil reais. Foi exatamente um dos novos donos do Ariri que tocou fogo no poste de energia.

O problema é que a comunidade vive da pesca, da agricultura, da criação de gado em pequenos rebanhos e da produção de farinha. A energia assegura o armazenamento dos produtos e a introdução de novas tecnologias para a produção em maior escala. O corte, além de atrapalhar a festa dos pequenos formandos, deve provocar prejuízos materiais.

Eu, que planejei esquecer da vida por aqui até sexta-feira, e só voltar para a ceia de Natal, tenho que anunciar às meninas, mais uma vez sob protestos, que precisamos ir embora antes do tempo. A comida, os iogurtes, sucos, enfim...
Penso que se estivesse só, ficaria na escuridão adorável da noite estrelada e silenciosa do Ariri sem energia elétrica, apenas com o piu dos pássaros, o murmúrio do rio e o abandono dos encontros oníricos com os seres que procuro na mais pura verdade do meu coração.

Márcia Corrêa
29.12.05