Paixão de Carnaval

 

Estava escrito nas estrelas. Ao final do reinado de sua majestade o Rei Sacaca, um outro rei subiria ao trono do Carnaval. Ele viria de longe, da mais nobre ancestralidade africana. Linhagem guerreira que atravessou o Atlântico sob sol e chuva, ventos e chibatadas para aportar nas terras recém descobertas, trazendo na bagagem a altivez de um povo forte e viril.

Sua marca, a sutil elegância do gesto. Seu legado, a leveza poética do bailado. Sua herança, o imenso e generoso sorriso que se amplia preenchendo de sentido o reinado de Momo.

Sua Majestade Sucuriju, eterno mestre-sala, sonho de qualquer porta-bandeira, reina absoluto com cetro e coroa, rainha, princesas e toda a corte do samba a lhe render tributos de felicidade.
Lembro-me, quando criança, acompanhava meu pai, Antônio Corrêa Neto, jornalista, aos desfiles das escolas de samba de Macapá, na avenida FAB. Enquanto a equipe da TV Amapá, da qual meu pai fazia parte, gingava de um lado para outro com equipamentos enormes, pesados, buscando os melhores ângulos para aquele registro histórico, eu me ajeitava num canto de onde fosse possível assistir ao desfile e não atrapalha-los ao mesmo tempo.

Naquela época já sentia uma emoção diferente quando os apresentadores da festa anunciavam a entrada de Boêmios do Laguinho. Aquela carga de tradição, a força da história de nossa colonização expressa assim em carne e osso. Tudo tão intenso que meu coração de criança mal compreendia, mas transbordava em pulsação.

Estava mesmo escrito. Lá, vinha ele, alto, imponente, incrivelmente elegante e com aquele sorriso exibido, maroto, certeiro. Sucuriju era o negro mais lindo que eu já vira. E bailava com tanta perfeição, segurando suavemente sua porta-bandeira, como se ela fosse pluma, jóia rara naquele mar de lantejoulas. E eu imaginava: quando crescer, vou ser porta-bandeira do Laguinho.

Os anos passaram. Sucuriju abriu mão do posto de mestre-sala, saiu da escola que ajudou a construir, onde aprendeu a bailar, onde deixou parte de seu coração de sambista. O príncipe do samba deixou sua Nação Negra para conquistar novas terras, erguer novos impérios de alegria. E nessa busca foi marcando um rastro luminoso de contribuição para o crescimento do Carnaval. Como um tributo à alegria e à criatividade do povo. Uma ode à expressão máxima da cultura popular brasileira.

Em verso e prosa, Sucuriju aguardava seu reinado. Foi quando um antigo rei, de longo e jubiloso reinado, percebeu que seu sucessor estava pronto. Afinal, a sabedoria de um monarca está em reconhecer o momento certo de passar seu manto a quem possa lhe suceder com a mesma altivez. Sacaca partiu sorrindo, pois o trono de Momo estaria em boas mãos. Sucuriju é rei, o Rei do Carnaval. Seus súditos somos todos nós, que acreditamos na alegria, modo de vida e na felicidade como utopia.

Não fui porta-bandeira do Laguinho e ainda hoje guardo na memória a emoção de ter desfilado uma única vez pela escola. Mas, daqui, de onde saem essas doces lembranças, rendo minhas homenagens ao rei e a toda corte do Carnaval: Dona Alice, a rainha boa que aprendemos a ter no coração; compositores; músicos; passistas; baianas; dirigentes; carnavalescos; empurradores de carros; intérpretes e tanta gente que deixa suor, lágrimas e paixão nessa explosão de brasilidade, que faz de nós um povo ímpar na formação humana da Terra.

Márcia Corrêa
Em 12.02.04