Meu partido é um coração partido e cheio de amor


Não acredito em nada, principalmente na política, que não tenha como ingrediente elementar o amor, seja ele como prática ou como utopia em construção. O amor, esse fundamento cantado em verso e prosa, pregado nos púlpitos e altares, ensinado nas obras solidárias, ansiando sofregamente por cada ser vivo que nasce nesse planeta.

Amor capaz de dedilhar as teclas de um piano e as cordas de um violão simplesmente para preencher os corações de música e levar as almas ao limiar do que pode ser chamado de felicidade. Amor amplo, generoso, sem cor de raça e ao mesmo tempo um arco-íris de matizes e sentimentos, capazes de mostrar ao homem que a vida é boa e pode ser vivida com qualidade, dignidade e prazer.

Amor ao próximo, ao outro, o mais difícil dos amores. Pois que exige audiência, paciência, tolerância, respeito às diferenças e perdão. Amor à vida na sua totalidade e nas suas diversas formas, mesmo aquelas que pareçam dispensáveis, pois que no ecossistema são partes integrantes e importantes do que buscamos e chamamos de equilíbrio.

Amor ao planeta, nossa casinha arredondada, de portas sempre abertas, cômodos confortáveis, dispensa farta e quase sempre tão mal cuidada. Amor sem culpa, sem medo, sem pudor, porque o amor é a matéria da liberdade.

Amor aos filhos, à família, aos amigos, aos bichos, às histórias da vizinhança, às risadas desavisadas, ao súbito medo de magoar, à humildade de reconhecer um erro e recomeçar, às velhas lembranças de escola, à vontade de expressar, de falar de amor. Essa é a utopia fundamental, o sonho banal, a busca ancestral de quem desce nessa estação chamada Terra.

Mas, no meio do caminho existem pedras. E o poeta Carlos Drummond de Andrade sabia o que estava dizendo. Por vezes são rochas tão imensas, de tamanha subjetividade e complexidade que nos consideramos incapazes de movê-las. Como aquela chamada ideologia, que surge na vida da gente quando o coração está mais desprovido de defesas, quando a juventude refresca nossos caminhares libertos e estamos dispostos a acreditar em tudo, até em mudar o mundo com a força de nossos sonhos.

A ideologia sorrateira se instala transformando os sonhos em ilusões. Os sentimentos em dogmas e a alegria em culpa. Mascara as utopias e descreve caminhos esquemáticos para cumprirmos como militares em nome da fé cega em fórmulas políticas criadas para realizar as revoluções.

E aí o coração perde o lugar de motor principal da nossa história, afinal, amor não combina com revolução. Aprendemos que sentimentos são fruto da cultura burguesa que visa única e exclusivamente aniquilar os mais pobres. Então é preciso endurecer, mesmo que o preço seja perder a ternura.

Essa lógica, levada a cabo nas relações interpessoais e políticas, destrói, corrói aquilo que originalmente alimentou nossas utopias, nosso desejo de felicidade, a leveza das lutas solidárias, a beleza das relações fraternas, a busca coletiva pela qualidade de vida. Desce como a lava vulcânica, incandescente a cobrir de dureza e infertilidade o solo de nossa alma.

Um dia, tudo aquilo em que acreditamos se quebra feito torre de vidro diante de nossos olhos atônitos. Não fica nada, a não ser um oco no estômago e a sensação desconfortável de que por anos, como em Matrix, pisamos em campo minado sem saber por onde passávamos. Víamos o que não existia e acreditávamos no improvável. Porque, diferente do sonho, a ilusão engana, mente, inebria e não se sustenta porque suas premissas são falsas. A ideologia, que acoberta infortúnios e fraudes se revela como a prisão de Alcatraz, de onde fugir é quase impossível.

Hora de bater em retirada, arrumar as gavetas, varrer o chão, jogar quase tudo fora e olhar para os lados em busca de janelas. Sair, respirar, caminhar, voltar a sorrir sem culpa, falar bobagem, encontrar os amigos, cantar madrugada adentro. Repensar, mas, sem pressa. Se aliar para fazer o bem, sem esperar mesmo nada em troca, muito menos voto. Dormir tranqüilo, acordar numa boa, batalhar pela vida, trabalhar, apostar nas pessoas, acreditar no amor. Hora de resgatar o velho sonho, aquele de mudar o mundo, mas desta vez com o coração no comando e a mente atenta às pedras do caminho.


Márcia Corrêa
01.08.03