Na pátria da bola não há governo


De quatro em quatro anos, e só nesse período, o Brasil fica verde e amarelo dos pés a cabeça. Há quem diga que falta sentimento cívico nos brasileiros, que deveriam vestir as cores da nação o tempo todo como os norte-americanos, por exemplo. O que falta aos brasileiros é comida na mesa, escola, saúde, trabalho e segurança, entre outras coisas que fazem de um povo o garoto propaganda de sua bandeira. No futebol o Brasil é mais Brasil porque é apaixonado, não tem diferença de raça ou classe social. É uma seleção de milhões de vencedores.

Os meninos do Brasil nascem e crescem passando boa parte do seu tempo correndo atrás de uma bola em campinhos de terra por todos os lugares, nos bairros, nas favelas, nas escolas, nos presídios, nas praias, no sertão, nas tribos. Um amor verdadeiro, cego, que esquece das horas, dos afazeres, aquece a vida difícil da pobreza, alegra o coração de quem não tem brinquedos, afaga a infância dos dias difíceis.

O Brasil esquecido ama o futebol, o Brasil abastado ama o futebol, o Brasil inteiro ama o futebol. Não há outra paixão que unifique os brasileiros em um sentimento tão forte. E fica por isso mesmo. Não há governo nessa pátria verde e amarela. É um amor por conta própria, livre, espontâneo, que sua a camisa atrás de patrocínio, faz vaquinha para comprar a bola e pede aos políticos em época de eleição um jogo de camisa em troca do voto.

O principal está pronto, existe e é forte o suficiente para envolver um povo inteiro. Falta agora os governos enxergarem seu papel nessa paixão. Dêem a bola e os meninos abandonam as armas, dêem os jogos de camisa e os meninos deixam pra lá as drogas, organizem torneios e os garotos acordarão cedo para treinar e fazer bonito, distribuam troféus e teremos milhares de campeões, façam do futebol uma grandiosa e organizada política pública de combate à violência para conquistarmos um país verde e amarelo o ano inteiro.

Ninguém nasce patriota, esse é um sentimento que se constrói com ações e uma boa dosagem de mídia é claro. Mas, o essencial é que as pessoas gostem de seu país pelo que ele tem a oferecer. O importante é que o povo não se envergonhe de seus governantes, que institucionalmente representam o país. É fundamental que a população tenha qualidade de vida para ter prazer em vestir as cores da pátria mãe.

Quanto à Copa do Mundo, no cenário de um outro Brasil possível, mais justo com seus cidadãos e cidadãs, continuará sendo o maior torneio internacional de futebol. Entretanto, certamente deixará de ser a válvula de escape que a cada quatro anos alivia as tensões sociais e inebria os olhos dos brasileiros, capazes de esquecer as dificuldades, a corrupção e todas as mazelas que afetam o país, só para ver a seleção canarinho brilhar na cena do mundo. E tomara que venha o penta.


Márcia Corrêa

14.06.02