Abaixo os posseiros de passeio público


Sempre que preciso estacionar ali por perto da Defensoria Pública do Estado, na rua Eliezer Levy, fico de frente com uma cena que me incomoda bastante, a placa abusada fincada na primeira vaga do estacionamento da calçada à esquerda: “Privativo do Procurador Geral do Estado”. Essa não é a única placa do gênero na cidade, é apenas a que está no meu caminho diário, por isso vou usa-la como exemplo.

Para começo de conversa, a calçada faz parte do passeio público. Em segundo lugar, não há nenhuma lei que assegure a autoridades da envergadura do procurador geral, lugar especial em espaço de uso comum da população. Afinal, “privativo” é sinônimo de próprio, exclusivo. Trata-se de uma palavra que vem de privar, que é o mesmo que tirar algo de alguém, no caso o espaço do povo.

Quem delegou esse poder ao procurador? Terá sido ele mesmo? Será que um homem com formação jurídica tem o poder de criar normas para benefício próprio? E os pobres mortais funcionários públicos e cidadãos comuns que precisam estacionar seus carros devem fazer o que? Criar vagas exclusivas para cidadãos?

Já imaginou como iria ficar a cidade cheia de plaquinhas: “Exclusivo do sr. João da Silva”; “Exclusivo da Srª Maria das Mercês” e por aí afora. Que bagunça teria criado o sr. Procurador e outros que agem como ele. Esse arroubo de rebeldia certamente não irá acontecer entre nossos pacatos cidadãos.

Mas, tenho uma idéia mais simples. A partir de hoje, declaro livre o passeio público, ou público o passeio livre, como queiram. De hoje em diante sugiro que ocupemos as vagas com as indigestas plaquinhas de exclusividade. E deixa o pau cantar. Essa é uma briga boa de se comprar. Uma briga cidadã. Estaremos nós, a população, de um lado e as autoridades que se apropriam das nossas calçadas de outro para decidirmos de quem são os passeios públicos.

Márcia Corrêa
10.11.02