Resistência no coração da cidade

Há exatos trinta e um dias os professores da rede pública estadual estão fora das salas de aula. É a mais longa greve da história da categoria no estado. Um mês de resistência de um lado, e de portas fechadas de outro. O Governo do Estado finge ignorar a capacidade de mobilização dos grevistas e prolonga a peleja apostando no desgaste do movimento. Os professores montaram acampamento fechando um quarteirão de uma das principais ruas da cidade e resistem.

Nos tempos de governo do PFL, que sucedeu os governos indicados pela Ditadura Militar, Aníbal Barcellos, o primeiro governador eleito após o regime dos generais, recebia manifestações dessa natureza com a brutalidade do batalhão de choque da Polícia Militar. Esse era o exemplo recente da época. Pancadaria mesmo, prisões, ameaças, perseguições. Mas, não sei se por causa da idade - na casa dos oitenta - ou por cinismo mesmo, Barcellos, hoje pré-candidato a vereador pelo velho PFL, distribui sopa no acampamento dos professores.

Dois mandatos de Capiberibe, que sucedeu o distribuidor de sopa, não passaram ilesos. Os professores fizeram passeata, greve e também se abancaram diante do Palácio do Setentrião. Outros tempos. O pessoal da Casa Militar, formado no conservadorismo dos quartéis, exalava contrariedade, mas aprendia, na marra, a respeitar as leis democráticas, os direitos dos trabalhadores, as liberdades civis, a integridade das pessoas que gritavam palavras de ordem contra seu chefe.

Tudo previsível. Mas, o imprevisível também faz parte do processo histórico. E bota imprevisível nisso. Até então o Amapá havia assistido a duas formas claras e antagônicas de trato entre governo e movimento social. Uma conservadora e violenta outra respirando democracia. Então veio a terceira e inusitada. Numa estratégia desastrada e atrasada, uma verdadeira burrada, as cabeças aliadas do governo Waldez inventaram uma passeata de estudantes, liderada por gente perigosa, para agredir, atacar física e moralmente os professores acampados.

Não deu certo. Os professores continuam lá. E o governo, que deveria estar em plena negociação, recebendo, dialogando, propondo, recuando até onde fosse possível, está mais perdido que bala em tiroteio. O acampamento saiu da frente do Palácio do Governo por ordem judicial, até porque do outro lado da rua fica O Tribunal de Justiça. Mas, foi armado um quarteirão antes, ao lado da Praça da Bandeira.

Uma das faixas expostas no local pede: buzinem em apoio à nossa luta. Eu buzino e acho que todo cidadão dessa cidade deveria buzinar também. Aí vão dizer, é porque não tenho filhos na escola pública, e eu digo, tenho pessoas que moram comigo e que estudam na rede pública. Isso resolve o problema? Não. O problema é maior. A seriedade no trato do ensino público é responsabilidade de todos, sobretudo do governo, que detém a chave do cofre, o poder de decisão, a obrigação de encontrar soluções.

Sinal vermelho! Quando a estratégia é expor crianças do ensino fundamental, enganadas sobre os motivos da passeata, em confronto contra seus professores, algo se perdeu. É desgoverno, descontrole, desregramento. Daí pra frente o que virá? Ah! Já veio, o vice-governador acionou o BOPE - Batalhão de Operações Especiais. Para proteger os grevistas é que não foi. Mas ele, o vice, foi detido a tempo.

E enquanto o governo não se encontra no seu desencontro, um outro setor da sociedade, este também teoricamente voltado para assegurar o bom funcionamento da democracia, ataca vorazmente parte desta mesma sociedade, que quer melhores condições para trabalhar, educar as crianças, formar as gerações. Setores da imprensa agem como cães de guarda dos poderosos. Pelotões de frente da versão oficial, sempre, desconsideram qualquer regrinha de profissionalismo e desatam a destilar deboche, ofensas, desrespeito, desamor e todo tipo de preconceitos contra os professores em greve. Aberração!

É tão difícil assim fazer democracia?
Porque será que o caminho correto, legal, ético, assusta tanto os governantes?
Porque não abrir o coração da gestão, mostrar as contas públicas, explicar as razões, ceder no que for possível, descer do pedestal, enfim, governar com amplitude. Tem que ser assim dessa forma torta, odiosa, desfigurada?
Enquanto isso, milhares de estudantes esperam em casa por um fim que não se anuncia. E que fique claro, todos temos responsabilidade com isso.


Márcia Corrêa
Em 16.06.04