AVE ANO NOVO, AVE BEIRA-RIO!

Tão logo caiu aquele horroroso tapume que enfeiava a Beira-Rio, me apressei em re-visitar a praça do entorno da velha Fortaleza de São José de Macapá, um dos nossos marcos civilizatorios, majestoso e imponente a rivalizar com a vigorosa e pujante imagem do Rio Amazonas, que em momento de inspiração João Bosco, delirante, cognominou de “ Deus castanho”. Extasiado, respirando cada milímetro de ar ofertado caminhei por suas alamedas e senti-me, sinceramente como privilegiado do criador.

Não é à toa que encantamos os visitantes com esta beleza de vista que nos faz sentir como um povo realmente abençoado por Deus. Daí me vem o impulso de esconjurar àqueles que, insensíveis, nos negaram por tanto tempo, mais de ano com certeza, o prazer de passear nas suas alamedas, ainda que mal acabadas, e pisar na sua fofa grama, onde por sinal se pode andar, já que de propósito a ele resiste galhardamente, por ser de sua natureza.Sensação indescritível.

A reabertura daquele imponente logradouro tem vários significados e entre eles, o maior talvez, a vitória do bom senso, do belo, do prazer contra a intolerância, a vendeta e a ignorância que ainda acometem a maioria dos nossos dirigentes. O belo ali concebido e erigido sobreviveu a incúria, ao desleixo, a irresponsabilidade social, a sanha e a ganância dos que constroem, e mal constroem, apenas pelo objetivo de ganhar e muito, não importando a obra.

Um simples passear pela praça é suficiente para se perceber que ao longo dessa interdição vazia, inócua, absurda, à primeira vista, nada foi tirado ou acrescentado por quem de direito e reclamado pelo poder público. Demonstrando não só desrespeito com a cidade e seu povo, como o verdadeiro sentimento que move essas empresas. A obsessão pela mais valia, pelo ganho fácil e, nesse caso específico, sobre uma obra que, segundo se fala, já teria sido regiamente paga e mal feita.

Grama verdejante, ainda que alguns espaços revelem sinais de sofrimento, vitimas do sol inclemente do verão, demonstrando que apesar dos homens resistiu ao descaso a que foi submetida. Atitude que, apesar de danosa, foi insuficiente para ofuscar o seu brilho natural, a visão portentosa do forte, a grandiosidade do seu espaço que nos permite caminhar ao sabor da brisa fresca que voa do rio em direção de quantos tem o privilegio de ai estar. Simplesmente genial!

Ainda na sua primeira fase, quando os tapumes ainda não tinham sido erguidos, cheguei a elaborar mentalmente, embriagado pela amplitude de seu espaço, o pouso de uma nave espacial na sua plataforma de concreto, palco do anfiteatro ali erigido e para onde convergem os círculos de tijolo que limitam os seus belos desníveis, totalmente revestidos de grama. Sem falar do espelho d’água e seus inúmeros chafarizes a esguichar água ao sabor do vento, produzindo uma imagem quase de sonho.

Perdoem-me o arroubo. Não contido, tenho que dar vazão a esse luxuriante sentimento. Sou tarado pelas coisas belas, pela presença da vida viva da natureza, pela reverência aos nossos valores culturais e tudo o mais que sai das entranhas da terra. Tudo ali reunido num cenário de fazer inveja a qualquer terráqueo. Uma majestosa Fortaleza como cenário de fundo a completar uma imagem absolutamente perfeita com o rio e o verdejante tapete da praça, suas feericas luzes, enfim o povo todo ali, os casais enamorados, um desfile sem fim de coisas belas.

Minhas efusivas saudações àqueles que se renderam ao óbvio, que contribuíram para reabrir o espaço, liberta-lo para a vida, num momento importante como o da passagem de ano. Que a libertação daquele logradouro simbolize bons fluídos e seja um sinal de boa-venturança a Macapá, uma cidade castigada pela falta de cuidado e de planejamento urbano que realce as suas belezas naturais que não são poucas. São simplesmente só desprezadas.

Belém se tornou um belo portal dessa Amazônia por que seus dirigentes deixaram de lado suas divergências políticas e resolveram explorar aos seus ângulos e janelas mais vistosas e belas. O resultado dessa parceria é que Belém vive hoje o seu apogeu, como já tive oportunidade de tratar aqui em artigo anterior. Tomara que possamos também vencer essas diferenças em favor de uma cidade que, apesar da enorme contribuição negativa de alguns prefeitos, encanta e atrai gente de todo o país para aqui viver e gozar de suas delícias, como é, sem dúvida a Beira-Rio. Ave ano novo, ave Beira-Rio!