COISA DE BABACA

Rupsilva

 

Costumo dizer que são várias as tragédias que se abate sobre o Amapá e uma delas é, sem dúvida, o maniqueísmo que regula o nosso comportamento.Por vezes chegamos ao paroxismo de criar a “turma do bem” e a “turma do mal”, como adotou-se recentemente e assumimos sem pudor a postura do a favor e do contra, como exigência básica de convivência.Essa é ,seguramente, uma herança dos nossos antepassados.

 

Uma reação à introdução de hábitos e costumes estranhos e à tentativa de se mudar paradigmas enraizados ao longo da nossa formação como povo e organização social.O amapaense sempre se sentiu usurpado do seu direito de governar , antes o ex-Território, com seus governos nomeados, e hoje o Estado pela ausência de compromisso mais explicito e sincero com seus valores maiores. A velha luta do colonizado contra o colonizador.Um processo que nenhum povo está livre e que nos acomete cronicamente.

 

Este estado de beligerância permanente extrapolou e ultimamente vem fugindo das regras civilizadas da convivência e atrapalhando o processo de desenvolvimento do Estado.Este, para atingir seu desígnio que é o estado pleno de bem estar social, necessita, antes de tudo, de unidade, cooperação e muito dose de tolerância.Os conflitos permanentes, nos moldes praticados pelas forças e elites políticas locais, demonstram a distância que nos separa das sociedades desenvolvidas e democráticas.E o pior é que ela é irracional e, porisso, predatória.

 

É regra básica da democracia a aceitação, pelos grupos sociais e políticos, da alternância do poder como elemento alimentador da própria democracia.O tecido social , como sabemos, é constituído de pessoas com visões, opiniões e soluções diferentes sobre as diversas questões que afligem a sociedade onde vivem.Por isso e comum dizer-se que esta é pluralista por abrigar pessoas que tem atitudes diferentes diante de problemas iguais.Em razão de que propõem soluções também diferentes, mas sempre na busca do mesmo resultado.

 

Infelizmente aqui a sucessão de grupos no poder gera inquietação .E na maioria das vezes o terror se instala nos corredores da máquina estatal.Espanta e impressiona a volúpia e a sandice com que e essas coisas são elaboradas e levadas à cabo.Toda vez que um governo toma posse,há sempre uma turma de plantão , despreparada e sem autoridade para tal , que passa em nome dele e até do governador, a mover a roda da divisão, da intolerância que realimenta o ódio ,o rancor e a onda maniqueísta que nos divide.

 

No vai e vem dos governos esta questão recrudesce.O aparato do Estado, na contramão da história das sociedades modernas, perde o seu caráter de impessoalidade.Os governos assumem, sem pudor, a cara do governador, como se imperioso fosse.Fala-se então: o governo fulano, a administração beltrano, como manda o rito criado pela ralé pensante. O ente servidor deixa de ser público pra ser do governante recém entronizado. O pânico instala-se, os “dedos-duros” proliferam e todos se sentem ameaçados pelo olhar , ouvidos e caneta implacáveis do Big Brother.Cenário de filme de terror!

 

Não bastasse há a questão dos tais “cargos comissionados” que proliferam aos milhares, disputados a tapas e produzem verdadeiras carnificinas.Ditos de “confiança” dispensam avaliação prévia ou teste de competência e são distribuídos por critérios sombrios.Neste caso, muito mais que na situação anterior, o funcionário pertence a dois senhores: ao governador e a quem o indicou, via de regra um “deputado e político da base” ou equivalente e que nas campanhas políticas formam um poderoso exército de cabos eleitorais , pagos pelo erário público.

 

Nada pior e mais drástico para um Estado que precisa crescer e desenvolver suas potencialidades esse quadro de mazelas.Não há solução em meio à mediocridade que isso resulta, não tenham dúvida.O governante pode até se perpetuar no poder, mas o Estado refletirá sempre a qualidade ou a pequenez de seus gestores.Cheguei a pensar que havíamos superado esse dilema histórico.Que havia o consenso que o desenvolvimento só ocorre pelo conhecimento, gerador de competência.É do processo histórico, não se trata de proselitismo ou filosofia de almanaque.

 

É estranho que o Amapá, um Estado novo e pequeno , abrigue tantos conflitos de interesses e intenções.Advogado não que mais advogar.Médico abdica de clinicar.Promotores desistem do seu mister, todos na busca do eldorado e da suprema glória do mandato popular.A função pública passou a ser a obsessão de todos.São exemplos pegos ao acaso.Há muitos outros.Entre nós há fome de “autoridade” e de desejo de reinar feito um sultão das Arábias.A propósito cito sempre o exemplo daquele juiz que distribuído para Brasília , onde descobriu-se nu , despojado de suas benesses , que lá ele era só um juiz e que aqui, no Amapá, ele era juiz e Rei.

 

Por fim quero dizer que o Estado pra encontrar a sua destinação histórica precisa abdicar de sua aura de terra encantada onde as pessoas são o que sonham e querem ser, independente de suas competências.Onde as pessoas fazem o que querem do seu destino( do Estado) e não prestam conta a ninguém.E onde ninguém tão pouco, ainda que devesse, cobra o que deveria cobrar.Isto vale pra todo mundo, pra sociedade em geral e principalmente para as autoridades constituídas.O conflito que inquieta e atormenta a mente e os corações de quem mora nessa terra mágica é como fazer pra entrar nessa grandiosa farra que é governar o Estado.Resolver seus problemas( do Estado) , ah! isso é coisa de babaca!