A BATUTA DE SARNEY

Embora a eleição municipal seja algo iminente, batendo a nossa porta, ainda assim pouco se sabe dos nomes preferências dos partidos para disputar a Prefeitura da capital, principal colégio eleitoral do Estado. Nem o PT, onde a de João Henrique era considerada líquida e certa, está fora de questão se levarmos em conta a disposição de Randolfe Rodrigues e Sergio de La Roque em disputar as prévias, conforme asseguram as normas estatutárias e a prática do Partido dos Trabalhadores.

Nesse caso especifico do PT resta saber se a disputa é mesmo para valer e se vai prosperar até à convenção. Ou se tudo não passa de marketing, uma dose de frisson com a intenção de ouriçar o público externo, motivar a militância ou simplesmente uma sessão de bate-lata. Pelo sim, pelo não, é bom não duvidar dos propósitos de um petista. Mas se verdade for, a direção nacional terá que jogar duro, novamente, se pretender manter o acordo que trouxe João Henrique, com mandato e tudo, do PSB para dentro do PT.

O interessante que nesse imbróglio petista tem o dedo de Sarney. Como aliás em tudo que se refere a política regional, desde que o poder mudou de mão em 2003. O senador é parte do impasse e uma das razões da resistência a candidatura de João Henrique, segundo uma fonte petista. O PT é um partido muito politizado, acostumado aos debates e embates políticos, que tem dificuldade de digerir certas práticas e figuras, ainda mais quando ferem princípios fundamentais como o que pretende considerar incondicional a candidatura do prefeito João Henrique, qualquer que seja a justificativa, sem passar pelas prévias partidárias. De quebra a sombra de Sarney.

João Henrique, compromissos à parte, vai continuar um “cristão novo”, sem raízes e militância dentro do PT. Vem daí a dificuldade da base engolir, sem discussão, a sua candidatura. Depois o partido não se considera no poder. O Prefeito veio só e manteve seus amigos intocáveis nos postos chaves da prefeitura como saúde e finanças, por exemplo. E para completar, essa aliança com o PMDB e Sarney que já demonstrou-se inócua com Dalva Figueiredo no returno das eleições de 2002.

Aos petistas incomoda a companhia e, mais que isso, a ingerência do caudilho maranhense na vontade interna do partido, maquinando nos bastidores em favor de JH, ação dia a dia mais clara, parte do seu acordo com o Planalto e que trouxe o velho PMDB para o governo. Essa aliança só interessa mesmo aos caciques petistas como o Presidente Lula, Jose Genoíno e José Dirceu e para garantir aquilo que eles chamam de governabilidade ou a maioria nas duas casas congressuais. Nas bases ela é problemática e em alguns locais abominadas, com muitos problemas de convivência nessas e em eleições futuras.

As peripécias de Sarney para reeleger-se ao Senado parecem tão ingratas quanto as do jovem Frodo, personagem do Senhor dos Anéis. Enquanto esse de tudo fez para libertar seu povo, Sarney busca desesperadamente salvar sua pele e reeleição ao Senado, vital ao seu projeto pessoal de política. Por esse motivo quer comboiar amplo acordo político, deixando de fora, por razões óbvias, apenas o ex-Governador Capiberibe, com quem trava uma batalha surda e sem fronteiras por liderança político no Estado.

Na lógica e vontade sarneyzista, nem o PT escaparia de apóia-lo em 2006. Quer todos sob sua batuta, principalmente o governador Waldez Góes quem, segundo acusam seus críticos de dentro e de fora do PDT, abriu mão de comandar a sua enorme fatia de poder, seja por lhe faltar aptidão para a tarefa ou simplesmente por pura insegurança, levando-o afastar-se de suas bases de sustentação para quedar-se ao comando de Sarney, que o quer no PMDB a qualquer custo.

Na engenhoca de Sarney, o apoio de Waldez Góes a João Henrique nas eleições municipais é necessário e indispensável para consolidação do “chapão”, quando os dois lado a lado disputariam e venceriam , sem qualquer embargo, as eleições ao governo do Estado e ao Senado Federal em 2006, conforme imagina. Neste projeto ficariam excluídos antigos aliados e companheiros históricos de Waldez Góes como o ex-senador Bala, o deputado Gervásio Oliveira, os irmãos Pedro e Benedito Dias e muitos outros que fazem parte da base do PDT, seu partido de origem.

Nessa reengenharia em curso sob o comando do senador, ganhariam Jaime Domingues e Lucas Barretos, nomes projetados por uma mídia astuciosa, paga e manipulada, hoje em alta para serem vices nessas eleições e em 2006. A eles se juntariam outros políticos promissores e obedientes, como é o caso do deputado David Alcolumbre, parte de um projeto novo de composição de força política, completamente diferente da que sustenta o atual governo e da que disputou o pleito em 2002. Ela é tão forte e óbvia que quem se opor ficará automaticamente alijado ou alinhado ao ex-governador Capiberibe, na clássica dicotomia que prevalece na política regional desde os tempos imemoriais.

Positivamente tudo isso é mais complexo que parece. A lista dos que perdem é enorme. Inclua-se nela, por exemplo, o Senador Papaléo Paes, ao contrário do que aparenta. Papaléo, onde quer que vá, não esconde que é candidato ao Governo em 2006, ainda que Sarney considere fundamental a sua participação no seu projeto. Isso vai exigir, mais uma vez, grande sacrifício pessoal, arremessando sua vontade para o longínquo 2010. Um tempo suficiente para o amadurecimento de outras lideranças a entulhar o caminho rumo ao Setentrião. Papaléo sabe muito bem disso, além do que o futuro só a Deus pertence, segundo o adágio popular.

E os Borges: que papel lhes caberá nesse complicado arranjo ,já que sem mandato são como peixe fora d’água? Estivéssemos sob a égide do regime de exceção, um mandato biônico resolveria tudo. O poder daqueles tempos é o mesmo que hoje lhe dá guarida, e tudo seria possível. Longe dos anos de chumbo, resta a Gilvan Borges, a tênue esperança nos tribunais de apelação de Brasília, onde se decidirá a sorte do recurso à decisão do TRE do Amapá, no processo que moveu contra o atual senador Capiberibe , desafeto pessoal, cujo resultado , no entanto, nenhum terráqueo é capaz de prever. Esta é a única forma de acomodar o seu grupo no imbricado tabuleiro que Sarney, caprichosamente, desenha para o futuro político do Amapá esgrimindo, com a força que lhe é peculiar, a poderosa batuta que toca com maestria os políticos sob o seu comando.