PARA ALÉM DA CORTINA DE FUMAÇA

É preciso olhar os fatos recentes da política para além do horizonte e da cortina de fumaça que tomou conta do cenário.É necessário ir ao âmago dos acontecimentos e ler nas entrelinhas.Esta lição faz parte do bom e saudável jornalismo.É um exercício penoso pra quem não tem o hábito nem o compromisso com a informação.Mais fácil é distorcê-la , maquiá-la ou colocá-la para baixo do tapete conforme as conveniências em jogo .

A defecção de João Henrique, prefeito da cidade de Macapá, que abandonou o PSB em meio a uma crise sem precedente no partido que o elegeu, ao contrário do que quer transparecer parte da mídia, tem na verdade variantes e facetas que devem ser colocadas para se preservar a memória e a histórica.Afinal é a imprensa a fonte mais preciosa onde vai matar a sede o historiador.

É correto dizer que o Senador João Alberto Capiberibe, como toda e qualquer liderança , e isso remonta o início de sua trajetória política , que coincide com a sua eleição para o cargo que hoje ocupa o magoado João Henrique, sempre exerceu com austeridade e pulso forte a chefia do seu partido, o PSB. Tanto quanto o comando de seus filiados que com ele se mantiveram longo período no poder.

É uma prática antiga e que por esta razão não lhe é exclusiva.Há outros irmãos de sangue.Dela fazem uso e se beneficiam , neste exato momento, Gilvan Borges no PMDB, os irmãos Dias no PPB, Hildegardo Alencar no PPS , o velho Comandante Barcelos no PFL , o Sarney no PMDB daqui e PFL do Maranhão, ACM no PFL da Bahia, Tasso no PSDB do Ceará e assim por diante.Todos grandes democratas no trato das questões desses partidos, desde que não contrariem seus interesses pessoais, confessos e inconfessos, e não coloquem em risco o domínio e controle desses verdadeiros feudos.

Dalto Martins e Jurandil Juarez , lideranças promissoras e emergentes do PMDB, por exemplo, sabem do que estou falando.É uma situação tolerada e consentida por quantos fazem política neste país.É assim no PSB e em todos os partidos, de norte a sul e nem o PT escapa com a sua decantada democracia interna, como pôde provar a Senadora Heloisa Helena, triturada recentemente pelo companheiro José Dirceu.Tudo é pactuado, repito, para acomodar interesses pessoais e vai bem até quando todos estão satisfeitos.

A paz no PSB foi quebrada depois da perda dos mandatos de Evandro Milhomem para a Câmara Federal e Eury Farias para a Assembléia Legislativa no último pleito , cujas razões, bastante discutíveis, ambos decidiram debitá-las ao chefe maior, o Senador Capiberibe. Mandi, Jorge Souza e outros, arraias miúdas , são apenas massas de manobra e aparentemente não tem do que se queixar. Embarcaram sem saber bem porque e por quase nada colocaram em risco o futuro político.

Para os socialistas a derrota de Milhomem , que como sociólogo deveria fazer uma leitura mais correta dos fatos , é atribuída ,antes de tudo , a sua auto suficiência , a convicção que tinha das limitações e possibilidades da Deputada Janete e ao fortíssimo lobby que fez para impedir a candidatura do Cel. Alves pelo PSB considerado, pela ótica do deputado, um risco real. Mais erro de avaliação.Hoje os três estariam eleitos e nada disso aconteceria.

Mais estranha ainda só a posição do Prefeito João Henrique.Que queixa, objetiva, pode apresentar? É absolutamente fato que seu triunfo é resultante do poder que Capiberibe exercia quando Governador do Estado.Tanto que o vínculo, estabelecido durante a campanha eleitoral , foi decisivo na hora do eleitor de se definir.Aquela historia do prefeito afinado com o Governador. Mesmo assim foi uma vitória duramente disputada contra um senhor candidato, que exigiu empenho,suor e lágrima dos seus ex-companheiros.

Percebe-se nitidamente que J.Henrique sente embaraço quando perguntado sobre as razões do rompimento.Deve lembrar que depois de sua vitória e antes de sair do Governo, Capiberibe capitaneou verdadeira batalha campal para garantir recursos para que ele, o João 40, comprovasse a sua fama de “tocador de obras” , admirado pelo ex-chefe.E por intermédio do seu trabalho o PSB aspirava manter-se com chances depois de apeado do governo estadual.

Na lógica do poder manda quem pode, faz quem tem juízo. Ficou óbvio , depois do fiasco de Cláudio Pinho, que o PSB respiraria pelas ventas do Senador eleito e do Prefeito renegado, em primeiro lugar e depois pela unidade do partido, capazes de confrontar a oposição furiosa formada nesses oitos anos de poder.A Prefeitura de Macapá e os cargos federais que o senador pudesse conseguir, e conseguiu, seriam as bases de apoio político que sustentariam o partido até o próximo embate eleitoral, justo a reeleição do J.Henrique.

Ao que se sabe, as tendências e correntes são da natureza de qualquer partido político.Há militantes e militantes.Uns confiáveis, outros nem tanto.A intenção era alojar na PMM, assim queria Capiberibe, os partidários firmemente comprometidos com a causa do partido.Os ideologicamente afinados.Suas indicações, por isso, nada tinham de pessoais, nem refletiam ingerência ou “mandonismo”.Engenharia política pura e simples, que J.Henrique não foi capaz de entender, na visão dos pessebistas.

Também há o fato de J.Henrique não ter garantido espaço no governo Waldez, após o seu decisivo apoio no returno da eleição estadual. Isto azedou a relação de ambos. Capiberibe a ele confiara a tarefa, sem que tenha logrado o sucesso almejado.Mas a favor do Prefeito a realidade : ninguém conseguiria.Ao ex-Governador - existe um pacto explícito entre as elites, tudo será negado e seu destino já traçado é o pelourinho.

Pode-se deduzir que a saída do Prefeito foi mal elaborada e deve lhe causar dificuldades adiante.Não é fácil arranjar espaço político numa terra onde todos os partidos têm dono e todo mundo que ser Rei. Mesmo com um canudo de Prefeito.O “grupo” que deixa o partido, ao contrário do que se supunha, não terá o mesmo destino.Ele nunca se propôs a somar coisa alguma, mas sim subtrair o PSB e nisso foi um sucesso retumbante.

Não se pode ver no gesto de ousadia de João , livre dos supostos “grilhões do autoritarismo” impostos por Capiberibe ao PSB, algo para fazer história e mudar a conduta dos congêneres.Na dúvida pergunte as lideranças emergentes e promissoras aqui antes citadas de propósito, como é que funciona a democracia interna do PMDB, por exemplo.O Brasil é aqui, o Amapá também, a Alemanha é n’outro hemisfério, longe , muito longe.