FORÇA BRUTA

A escolha do atual Secretário de Saúde e ex-Senador Sebastião Rocha como candidato do governo para disputa da Prefeitura de Macapá, como era de se prever, não será um parto sem dor. À medida que se torna imperioso anunciar o nome do candidato do governo, pendente entre Rocha, Lucas Barreto, Jorge Amanajas, Ruy Moraes e David Alcolumbre, todos do PDT, aumentam as pressões e contra pressões. Esse prazo poderia se estender até um pouco mais, não fosse o dia 2 de junho o prazo fatal para que Bala deixe o cargo, conforme exigência da lei eleitoral.

Nessa disputa a pole de Rocha - reconhecida como forte pelos concorrentes, tem suas razões de ser, como já por várias vezes coloquei nesse espaço. A maior de todas é sem dúvida a forte amizade que mantém com o governador e a confiança que nele deposita o mandatário do Estado. Bala já deu demonstrações inequívocas de lealdade a Waldez em todos os momentos de sua trajetória política, fato sobejamente reconhecido por todos que militam nas hostes do PDT e compõem o núcleo de sustentação do governo.

As maiores pressões contra a candidatura de Rocha provem da Assembléia Legislativa. Mais precisamente da denominada “base de apoio” do governo naquela casa. Acontece que quando se é poder, a convivência estreita com ele transmite aos convivas a falsa sensação que às possibilidades de vitória não se contrapõem nenhum limite nem barreiras. O poder elege qualquer um e qualquer coisa - e até poste, como se acostumou dizer a crônica política. Há uma força intrínseca inerente ao poder. Talvez pela sua poderosa mídia, talvez pela máquina que aciona nos embates eleitorais e outros babados mais. E isso seduz qualquer mortal. Quanto mais um político de carreira.

A definição por Rocha faz sentido. De todas as razões ressalta ser ele único capaz de garantir, ao governo, o apoio necessário a reeleição do velho amigo Waldez, companheiro de longas jornadas, num momento difícil de definições políticas, em que precisa consolidar o seu projeto de poder. Ninguém tem dúvida disso, dentro e fora do núcleo próximo do governador. Não é sem razão que Gervásio Oliveira, o outro vértice de um triangulo que fazem parte e tem a cara do PDT, é um dos maiores defensores da candidatura de Bala.

Depois a pressão que vem da Assembléia legislativa, embora seja parte do jogo, perde muito da sua legitimidade ao tentar mudar o curso natural do processo e desafia a vontade e autoridade da liderança maior das forças que governam o Estado. Afinal a AL não tem o que reclamar do governo. Recebe um generoso duodécimo, almejado e negado nos governos passados, cujos números permitem aos membros daquela casa sonhar com o paraíso. E mais: são parte do governo que ajudam administrar através de incontáveis indicações a cargos de gerencia superior, como todo mundo sabe. Sem contar outras facilidades, sobejamente conhecidas, produzidas pelo “poder” que carrega um deputado.

Por tudo isso ceder as pressões oriundas daquela casa seria transferir-lhe o poder da decisão política do governo. Decisão essa que, por todas as razões e méritos, pertencem ao governador Waldez Góes. Por um motivo elementar a mais: trata-se do líder maior dessa facção a qual as lideranças políticas da casa, qualquer que seja o seu calibre, devem obediência. Mesmo porque o poder ostentado pelo Deputado Lucas Barreto, em favor de quem se faz o levante, deriva seguramente do Governador que apostou no seu nome, por considera-lo fiel e confiável para dirigir a AL, em nome da maioria do governo. Daí deduz-se que devem obediência a sua liderança, orientação e decisão política. Esta é a convicção do Setentrião.

Não tenho nenhuma dúvida que esse é o primeiro dentre outros embates que se seguirão pela disputa do poder político do Estado. E ele se dá na base do governo. Não se trata de uma disputa esperada e compreensível com o PSB de Capiberibe ou mesmo com o novo PMDB que poderá surgir com unção de Papaléo, afinal, ao comando do partido e da sua vontade de candidatar-se ao governo em 2006. Ou mesmo do PT, que apesar de esfacelado, pode ressurgir como força se lograr repetir o mandato de João Henrique em outubro.

A fratura e a disputa estão na base do poder. No núcleo de sustentação do governo, movido seguramente por ambições abusadas de parlamentares, seja pelo efeito da picada da mosca azul, por absoluta ignorância do processo ou pela simples demonstração de força e capacidade de arrombar a porta. E de quebrar as regras da harmonia, do relacionamento, dos princípios da ética que devem nortear as atitudes de quantos são parte do poder. Essa ingerência indevida não justifica, muito menos negar apoio à decisão do governador pelo velho amigo. Reclama, cheio de razões, um assessor próximo do governo.

O governo estaria sentado - como se diz, sobre um paiol de pólvora cujo rastilho se ameaça acender a qualquer momento capaz de implodir a candidatura de Bala e do governador Waldez. Fala-se que caso essa batalha siga em frente e não apareça alguém capaz de impedir o seu curso, ela provocará um enorme prejuízo à reeleição de Waldez, por abrir fendas enormes separando as várias correntes de apoio ao governo. A unidade é um elemento fundamental em qualquer eleição, nessa em particular pelos seus reflexos futuros.

Caso o governador venha ceder as pressões oriundas da AL, perderá completamente as rédeas tanto do processo político como do seu governo. Sem exagero pode-se dizer que ele, o governo, termina nesse momento. A partir do que, se vitoriosa, a AL terá assumido também o poder executivo. E tem mais: os métodos de convencimento usados contra Waldez, pessoa reconhecidamente polida e cavalheira, ele jamais usaria contra um adversário, mesmo que esse fosse Lucas Barreto. E esse, seguramente jamais aceitaria, enquanto governador, pelo que se conhece do seu estilo, que fossem no seu gabinete exigir aquilo que jamais poderia fazer. Qualquer que fosse a desculpa.